Mudança climática, uma faísca incendiária no oeste dos Estados Unidos

O incêndio em Creek na Califórnia que consumiu 66.000 hectares
O incêndio em Creek na Califórnia que consumiu 66.000 hectares AFP

Os incêndios florestais que se espalharam ao longo da costa oeste da América do Norte, do Canadá ao México já mataram mais de 30 pessoas desde o início do verão no hemisfério norte. Muitos especialistas estimam que os incêndios atuais estão relacionados às mudanças climáticas. Nesta segunda-feira (14), o governador da Califórnia, Gavin Newsom, confrontou o presidente norte-americano, Donald Trump, em visita ao estado: "As mudanças do clima são reais!", disparou. A RFI conversou com Lorenzo Labrador, cientista da Organização Meteorológica Mundial, sobre o assunto.

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"Vai acabar esfriando", disse um Trump otimista nesta segunda-feira em visita aos devastados estados do oeste norte-americano, ostentando um sentimento que não é partilhado nem de longe pela comunidade de cientistas dos Estados Unidos, que estuda o fenômeno dos incêndios na costa do Pacífico.

Quando chegou à Califórnia nesta segunda-feira, o presidente conservador insistiu no "manejo florestal" no oeste dos Estados Unidos, antes de ser confrontado pelo governador da Califórnia, Gavin Newsom, que lhe disse que a mudança climática era "real" e que esta "agravou" os incêndios.

De acordo com o consenso científico, a escala desses incêndios florestais está definitivamente ligada às mudanças climáticas, que agravam a seca crônica e causam condições climáticas extremas.

“Os incêndios florestais são uma combinação de muitos fatores: seca, ventos extremos, ondas de calor, tempestades. Todos esses fatores podem ser exacerbados ou intensificados pelas mudanças climáticas, que podem levar a ondas de calor mais intensas, temperaturas mais altas e secas, produzindo mais combustível para incêndios", explicou Lorenzo Labrador, cientista da Organização Meteorológica Mundial.

"A comunidade científica globalmente concorda que, embora os incêndios florestais sejam naturais, as mudanças climáticas podem prolongar a temporada de incêndios e torná-la mais intensa. Isso já é observado há muito tempo”, disse.

Menos frequente e intenso que no estado vizinho da Califórnia, no Oregon também ocorre uma temporada de incêndios florestais, porém, “este último periodo tem sido um dos mais intensos. Isso se deve a uma combinação de fatores ”, antecipou Labrador.

“Estão em jogo a mesma seca e a mesma quantidade de ventos fortes que afetam o estado da Califórnia, mas no Oregon o fato de as pessoas queimarem lixo também colabora para que a mão do homem, somada à seca e às altas temperaturas, gere incêndios além dos naturais”, acrescenta.

Os incêndios florestais não destroem apenas árvores, plantas, animais e uma biodiversidade já bastante atingida pelo ser humano. Seus efeitos acabam sendo prejudiciais à própria humanidade.

Incêndios invisíveis

“Muitos dos incêndios florestais não são necessariamente vistos. A parte visível geralmente é o vapor d'água e o descaroçador, um produto da queima de lenha e das horas, mas há uma série de emissões associadas aos incêndios florestais que não são visíveis, mas são tóxicas e afetam de certa forma a saúde humana de maneira crítica, especialmente para pessoas que sofrem de problemas cardiovasculares e doenças respiratórias", detalhou o cientista.

Faíscas em Oregon, cinzas na Europa

“Há uma série de imagens de satélite muito recentes que mostram que parte da nuvem de fumaça dos incêndios florestais na Califórnia e no Oregon, que conseguiram cruzar todo o continente americano a partir do norte, foram aprisionados pela corrente de jato de latitudes setentrionais, no norte, e cruzaram todo o Atlântico. Foi visto que parte dessas emissões estão começando a chegar à Europa através da parte norte das Ilhas Britânicas e da parte norte do continente europeu", afirmou Labrador.

"Eles não chegarão com a mesma concentração que vêem na América do Norte, mas existe a possibilidade de que estejam chegando e sejam detectados. Isso mostra que fenômenos como fortes incêndios florestais não limitam seus efeitos apenas no local onde ocorrem, mas podem chegar até outro continente, que é o que está acontecendo agora”, concluiu o cientista da Organização Meteorológica Mundial.

"Essa é uma das razões pelas quais as pessoas estão sendo deslocadas. É importante mantê-las longe do fogo, mas também é importante mantê-las longe de emissões tóxicas que degradam a qualidade do ar. É um problema que ocorre em qualquer lugar do mundo onde há incêndios florestais”, comentou.

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