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Linha Direta

Venezuela: o moribundo bolívar perde espaço para o dólar

Áudio 05:32
O bolívar perdeu terreno por causa da hiperinflação, mas ele continua presente no cotidiano do venezuelano.
O bolívar perdeu terreno por causa da hiperinflação, mas ele continua presente no cotidiano do venezuelano. AP - Fernando Vergara
Por: Elianah Jorge
12 min

A Venezuela vive o terceiro ano consecutivo de hiperinflação, o que afeta gravemente o bolívar, a moeda nacional. Aos poucos, o dólar a substitui nas transações eletrônicas e toma seu lugar na economia venezuelana.

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Elianah Jorge, correspondente da RFI na Venezuela

Nem mesmo o corte de cinco zeros que o presidente Nicolás Maduro fez em agosto de 2018 conseguiu revitalizar o bolívar, que, na ocasião chegou a ganhar o sobrenome de “soberano”. Mas, com a constante alta dos preços, o dinheiro em circulação não é suficiente e escasseou. É cada vez mais raro ver notas da moeda venezuelana circulando no país.

Os caixas eletrônicos raramente funcionam, já que não há dinheiro em espécie. Ir ao banco é frustrante. As agências funcionam apenas durante a semana de flexibilização da quarentena. As filas quilométricas nem sempre obedecem ao distanciamento obrigatório. Lá dentro, o caixa informa quanto pode pagar a cada cliente. Com sorte é possível sacar até 400 mil bolívares, valor equivalente a meia caixa de ovos.

No entanto, o bolívar resiste nas transações bancárias, sejam elas transferências ou pagamentos por débito.

Atualmente a maior cédula é a de 50 mil bolívares. Para efeito de comparação, um dólar, de acordo com a cotação do Banco Central da Venezuela, vale pouco mais de 366 mil bolívares.

Cinco zeros a menos

Em 2018, Nicolás Maduro ordenou o corte de cinco zeros na moeda nacional. Após a reconversão monetária, a moeda norte-americana começou a ganhar espaço nas transações no país socialista.

As novas notas da moeda venezuelana, emitidas entre 2018 e 2019, supriram a demanda nacional por apenas 11 meses.  Depois desse período, “a quantidade de dinheiro em espécie era insuficiente graças ao efeito da hiperinflação”, explica o economista Luis Bárcenas.

“Na medida em que os preços subiam de forma acelerada, os custos das transações cresciam muito mais do que a rotação das notas em espécie. Isso gerou a escassez de notas um ano após a reconversão”.

Bárcenas detalha que “dois anos após a reconversão, os números oficiais do Banco Central da Venezuela apontam para uma inflação acumulada, desde então, de mais de um milhão e setenta mil por cento. Ou seja, recuperamos quatro dos cinco zeros retirados da moeda anteriormente”.

O uso do dólar disparou em 2019 durante o mega apagão. A falta de eletricidade impedia o uso do sistema bancário e incentivou as negociações em moeda estrangeira.

O economista Asdrúbal Oliveros especifica que, nos últimos meses, praticamente 51% das compras de alimentos e de artigos de cuidado pessoal são feitas em dólares, e apenas 49% em bolívares.

Mas pagar em dólares pode ser complexo. Nem sempre há troco para a moeda estrangeira. Nesse caso, o cliente completa pagando através do cartão de débito em bolívares. Quem tem economias ou recebe em dólar também faz os pagamentos em moeda estrangeira online. O jeito mais popular é através do “zelle”, um sistema de transferência interbancária através do registro do correio eletrônico.

Para pagar o ônibus, por exemplo, a depiladora Maria Acosta precisa trocar seus dólares. Com notas de US$ 1 ou US$ 5, ela vai a um camelô ou estabelecimento comercial para obter moeda local e assim pagar a passagem, que custa 20 mil bolívares. Entre tantos problemas no cotidiano, o venezuelano precisa ser criativo na hora de fazer pagamentos com o bolívar soberano. Não há troco para essas notas. 

Mais dólares que bolívares

De acordo com números não oficiais, cerca de US$ 2 bilhões circulavam na economia venezuelana em julho deste ano.

Os números do Banco Central da Venezuela apontam que em bolívares existe em circulação o equivalente a US$ 630 milhões – cerca de 30% do que é movimentado em dólares. O economista Luis Bárcenas detalha que, se comparado ao Produto Interno Bruto, as negociações em bolívares seriam de cerca de 1% do PIB. Já a circulação de dólares se aproxima a 4% do PIB. 

Esses números demonstram que o bolívar perdeu terreno por causa da hiperinflação. “Poupar em bolívar não vale a pena”, reitera Bárcenas, “no entanto ele continua presente no cotidiano do venezuelano”.

A hiperinflação é uma das causas do desaparecimento físico do bolívar. De janeiro a agosto deste ano os preços subiram cerca de 630%.

“A situação dos bolívares em espécie é dramática. Há apenas o equivalente a US$ 20 milhões circulando em moeda nacional. Isso seria cerca de US$ 0,70 por habitante. Ou seja, a quantia no bolso do venezuelano equivale a menos de um dólar”, explica Bárcenas.

O dólar é forte nas negociações de compra e venda de mercadorias, mas uma importante parcela dos venezuelanos continua recebendo pagamentos em bolívares.

Miguel Pérez circula pelas ruas da capital Caracas empurrando um carrinho de sorvete. Ele conta que boa parte das vendas são feitas em dólares. O preço da mercadoria varia entre US$2 e US$3,50.

“Quando me pagam em bolívares é por via eletrônica. Só vejo bolívares em espécie quando meu chefe me paga”, conta ele mostrando cerca de dez dólares que carrega no bolso após fazer algumas vendas.

Miguel Pérez circula pelas ruas da capital Caracas empurrando um carrinho de sorvete. Ele conta que boa parte das vendas são feitas em dólares. O preço da mercadoria varia entre U$2 e U$3,50.
Miguel Pérez circula pelas ruas da capital Caracas empurrando um carrinho de sorvete. Ele conta que boa parte das vendas são feitas em dólares. O preço da mercadoria varia entre U$2 e U$3,50. © Elianah Jorge/ Fotomontagem RFI

      

 

Na corda bamba

Zugem Chamas, professora de economia da Universidade Central da Venezuela, explica que “o bolívar está mais para o virtual que para real. Ele vive através dos cartões (de débito) e das transações bancárias”.

A maioria dos pagamentos em bolívares são feitos online. O comércio usa o cartão de débito ou o “pago móvil”, uma plataforma de transferência por via telefônica. 

Mesmo perdendo a corrida para o dólar, o bolívar não deve desaparecer – pelo menos por agora. Zugem Chamas explica que “há uma população significativa que não tem acesso a outro tipo de moeda”.

Com o avanço da hiperinflação, algumas empresas começaram a pagar salários em moeda estrangeira. Porém, funcionários estatais, beneficiários dos programas de governo e aposentados continuam ganhando em bolívares.

“Mesmo que o dólar esteja circulando nas ruas, o governo paga em bolívares, por isso essa moeda não pode desaparecer. Isso implicaria mudar a Constituição”, explicou a professora de economia.

A economia venezuelana caminha pela corda bamba com o dólar de um lado e o bolívar de outro. Até mesmo a gasolina, agora importada do Irã, é cotada a U$ 0,50 por litro nos postos não subsidiados. O combustível pode ser pago em notas da moeda norte-americana ou no débito em bolívares.

 

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