Análise: Com Covid, Trump deverá mudar drasticamente sua estratégia de campanha

O analista político Thiago de Aragão
O analista político Thiago de Aragão © Captura de tela

Os americanos vão às urnas no próximo dia 3 de novembro para decidir se renovam o mandato do republicano Donald Trump ou se colocam no comando da maior potência do planeta o democrata Joe Biden, ex-vice-presidente. De Washington, o analista político Thiago de Aragão, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, pesquisador sênior do Center for Strategic and International Studies e do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS, França), e diretor de estratégia da  Arko Advice, vai analisar para a RFI Brasil os contornos e impactos de uma campanha eleitoral e uma eleição já consideradas históricas. 

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Thiago de Aragão, de Washington

A eleição americana segue com contornos cada vez mais dramáticos. Após um debate, no mínimo inusitado, onde a troca de acusações, interrupções e tentativas de intimidações imperou, o debate de propostas e planos de governo deverá ficar a cargo dos candidatos à vice-presidência que debaterão na quarta-feira. No entanto, o fato mais importante da última semana não foi o debate, mas sim o anúncio de que o Presidente americano Donald Trump contraiu a Covid-19 e foi internado em Bethesda, na área metropolitana de Washington DC.

Com a Covid, Trump deverá mudar drasticamente sua estratégia de campanha. Primeiramente, sua força vem dos comícios e da narrativa agressiva que agrada seus eleitores e coloca adversários contra a parede. A ausência nesses comícios levará Trump a se ancorar mais nas redes sociais a fim de desestabilizar a narrativa de Joe Biden.

Já Joe Biden seguirá uma estratégia diferente também. Usará o momento de reclusão de Trump para focar mais em propostas de governo e segurará os ataques ao Presidente americano, para que isso não indique uma falta de sensibilidade com a condição de Trump. Sua liderança nas pesquisas não traz tanta tranquilidade, já que dois pontos são críticos nesse estágio: a credibilidade das pesquisas e a presença dos eleitores democratas no dia da votação.

Votos decisivos

Os votos pelo correio terão um papel preponderante nessas eleições. Já são mais de 3 milhões de votos enviados pelos correios. A tendência é que a maioria desses votos seja pró-Biden, já que o eleitor republicano, tradicionalmente, não opta por essa alternativa.

Caso o voto pelos correios sejá o fator decisivo no resultado final, Trump já indicou no discurso que poderá judicializar e pedir uma reavaliação dos votos, sob a suspeita de fraude eleitoral. Isso indica que as eleições poderão ser decididas apenas semanas após a votação, o que traz instabilidade econômica, política, jurídica e social.

Biden tentou durante boa parte da eleição focar o debate em cima do tema de saúde pública, enquanto Trump tentava trazer o debate para a arena da segurança pública. Com a Covid, Trump poderá se ver sem saída para mergulhar no tema de saúde pública e sua controversa estratégia de contenção do vírus.

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