Como a crise sanitária reconfigura o voto latino nos Estados Unidos

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chega para um painel de discussão com apoiadores latinos no Arizona Grand Resort and Spa em Phoenix, Arizona, em 14 de setembro de 2020.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chega para um painel de discussão com apoiadores latinos no Arizona Grand Resort and Spa em Phoenix, Arizona, em 14 de setembro de 2020. AFP - BRENDAN SMIALOWSKI

Os hispânicos são a minoria étnica número 1 nos Estados Unidos e uma quantidade recorde de latinos deve votar nas eleições de 3 de novembro, tornando-se um eleitorado chave para as campanhas do presidente americano, Donald Trump, e de seu rival democrata, Joe Biden.

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Xavier Vila, correspondente da RFI em Washington

A pandemia de coronavírus nos Estados Unidos teve impacto além do setor da saúde e pode influenciar o voto de vários latinos. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) indicou, na quarta-feira (7), que existe um alto risco de contágio e morte pelo Covid-19 entre as populações negras, hispânicas e indígenas do país, o mais afetado pelo vírus no mundo.

Quase 211.000 pessoas morreram e 7,5 milhões foram infectadas com o novo coronavírus neste ano nos Estados Unidos. A Covid-19 deve se tornar a terceira principal causa de mortes no país em 2020. Entre os infectados, está o presidente Donald Trump. Ele ficou internado durante três dias na semana passada no hospital militar Walter Reed, cujas imediações estiveram repletas de partidários do candidato republicano. Entre eles, alguns latinos.

"É a primeira vez que vou votar em um republicano ”

“Na verdade, sempre fui um democrata. Em toda a minha vida, é a primeira vez que vou votar em um republicano”, disse Flor Suárez à RFI, eleitora latina que chama atenção usando um chapéu rosa com uma mensagem de apoio à Trump. “Isso me preocupa porque muitos do nosso povo estão enganados. Os enganos começam ao achar que o presidente Trump é racista, é a partir daí que tudo começa", contemporiza. Suárez se refere à comunidade latina, castigada desproporcionalmente pela Covid-19.

“Sempre mantivemos o negócio aberto, funcionando”, diz o cabeleireiro Miguel Póveda em seu salão "Bethesda", que dirige desde 1987, poucos anos após sua chegada do Paraguai. “Muitos clientes já não vêm. Eles têm medo de pegá-lo [o coronavírus]. Mas eu não tenho medo, estamos abertos há 3 meses”, diz Póveda, que, aos 78 anos, ainda mantém um negócio lucrativo, diferentemente dos 18% de hispânicos que perderam o emprego por causa do vírus. Póveda não teme, diz, porque "Trump está no comando".

"Eu mal conseguia dormir à noite porque estava preocupada em perder meu emprego", disse Inés Rojas, que votará em 3 novembro, ao contrário das eleições anteriores. Ela votará no democrata Joe Biden, que acredita que pode ajudá-la em sua situação.

“Eu me levantava pensando: o que vou fazer? Como vou sobreviver com US$ 800 por mês?”, diz Rojas, referindo-se à ajuda do Estado que recebeu até agora, e que chega ao fim, pelo menos por enquanto, por causa do desentendimento político sobre a extensão de subsídios públicos aos afetados pela o vírus. O assunto deve influenciar a votação de 3 de novembro.

Número recorde de latinos

Nessas eleições, há um número recorde de latinos aptos e inscritos para votar. No total são 32 milhões de eleitores hispânicos, o que representa 13,3% do total do eleitorado norte-americano.

Entre os latinos, a vantagem de Biden continua sendo clara, com 65% de apoio ao candidato democrata, contra 36% ao republicano, segundo dados de uma pesquisa publicada na terça-feira (8) e realizada pelo NALEO e o Instituto Latino Decisions.

Quando o assunto é Covid-19, 52% dos entrevistados disseram que desaprovam  veementemente a forma como o presidente republicano está lidando com a pandemia. Os Estados Unidos têm mais de 6,3 milhões de casos diagnosticados no território, com cerca de 190 mil mortes por coronavírus desde o início da crise de saúde.

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