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Argentinos inventam "bandeiraço" para protestar contra quarentena e governo Fernández

Por uma Justiça independente e contra a impunidade da corrupção.
Por uma Justiça independente e contra a impunidade da corrupção. © Foto Márcio Resende
Texto por: Márcio Resende
6 min

Milhares de argentinos protestaram em mais de 120 cidades do país contra a quarentena no país e contra a estratégia do governo de avançar contra as liberdades e a favor da impunidade na corrupção. Foi a maior manifestação em dez meses de governo do presidente Alberto Fernández.

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

Nas principais praças e avenidas do país, milhares de bandeiras argentinas eram agitadas, enquanto o barulho do panelaço se misturava ao das buzinas dos automóveis em caravanas. Essa nova modalidade de protesto, chamada de "bandeiraço", foi convocada pelas redes sociais.

Das janelas, as pessoas que preferiram não quebrar a quarentena protestaram com panelas e cornetas. De vez em quando, a orquestra propositalmente ruidosa cedia lugar à entonação do hino nacional argentino.

Os protestos aconteceram em pequenos povoados e nos pontos de referência das grandes cidades. Eles também ocorrem em locais simbólicos, como o Monumento à Bandeira, na cidade de Rosario, a Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede do Governo em Buenos Aires, e à residência oficial de Olivos, para que o presidente Alberto Fernández escutasse o protesto.

Nesse último local, Julieta Bogado, de 38 anos, erguia o cartaz "Pela Pátria Livre, Justiça independente e sem impunidade". "O Governo viola todos os dias a Constituição. Não temos liberdade para circular nem para trabalhar. Cada vez mais, limitam os nossos direitos. Precisamos que a Justiça seja independente. Peço, por favor, que o mundo olhe para o que está acontecendo na Argentina. Estão acabando com o país. Não temos liberdade e não é por culpa da pandemia", descreveu à RFI.

Apesar das urgências sanitárias e econômicas do país depois de 207 dias de quarentena, a mais longa do mundo e estendida até pelo menos 25 de outubro, o governo avança com sua agenda.

Passar a boiada da corrupção

No Congresso, a vice-presidente Cristina Kirchner, também presidente do Senado, dá continuidade à Reforma do Judiciário. Manifestantes e juristas acusam o projeto de garantir a impunidade da ex-presidente perante uma dezena de processos por corrupção que a visam. A Reforma reestrutura o Judiciário, possibilitado a indicação pelo governo de centenas de juízes.

"Viemos aqui para defender a República e as suas instituições. Querem colonizar a Justiça com os seus aliados. Querem dominar o Congresso. Tudo para garantir a impunidade da vice-presidente e dos seus comparsas. Queremos uma pátria livre sem semelhança com Venezuela nem Cuba", acusou Liliana Martínez (56).

Na principal avenida do país, a 9 de Julio, centenas de automóveis participaram do buzinaço ao longo de quatro quilômetros. Segundo a Polícia Federal, foram mais de sete mil carros.

Além de bandeiras nacionais, nos cartazes exibidos pelas janelas dos automóveis podia ler-se: "Em defesa da República", "Pela Constituição e pela Liberdade", "Contra a impunidade e a corrupção".

Uma das bandeiras era do Uruguai, país para onde 29 mil argentinos partiram no começo da quarentena e não voltaram mais. Milhares de profissionais liberais e empresários estudam a possibilidade de estabelecer uma nova residência fiscal para fugirem de novos impostos e das restrições ao movimento de capital.

"Querem que sejamos todos dependentes do Estado enquanto os comércios quebram, as pessoas perdem empregos, a pobreza aumenta", disse Viviana, que erguia a bandeira uruguaia.

Queda livre

No segundo trimestre, a economia argentina encolheu 19,1% e a previsão é de uma queda anual próxima de 15%. O peso argentino perdeu 230% do seu valor em um ano. A desvalorização diária alimenta a inflação de 40%, que ameaça sair do controle. Esse círculo vicioso, que devora empresas, elevou a pobreza de 35,5% a 40,9% e deve chegar a 50% no final do ano.

"A quarentena não é o método para cuidar da saúde. Vamos morrer de fome antes. Tenho medo da pobreza, da miséria e da insegurança. É terrível o lugar para onde nos levam. Vamos todos falir", advertiu Pablo Ortíz (52), empresário no setor do Turismo. Há sete meses, voos domésticos e hoteis estão proibidos para os próprios argentinos que não podem ir de uma província a outra.

Envolvida na bandeira da Venezuela, María Laura Méndez (46) alertava os argentinos ao seu redor. "Já vivi isso na Venezuela. Não quero que se repita aqui. Lutem enquanto há tempo. Não saiam do país. Fiquem para impedir que a Argentina torne-se a nova Venezuela. Não quero ver este país terminar como terminou o meu", pediu emocionada.

Mas Carmen Almeyda (76) é mais pessimista. "Tenho 76 anos. Já vivi 15 crises, mas esta parece terminal. Estão devastando o país. Os meus netos querem ir embora. Não veem mais esperança no horizonte e não tenho mais argumentos. Por isso, venho. É a minha última luta por este país", afirmou.

Crise de popularidade e de confiança

Sondagens, como a da consultora Giacobbe & Asociados, indicam que somente 33,3% dos argentinos apóiam a continuidade da quarentena e os que querem o seu fim chegam a 55,7% da população.

Em março, o presidente Fernández registrava uma taxa de aprovação de 67,8%. Desde então, perdeu 33 pontos, chegando agora a 34,8%. A imagem negativa subiu a 52,8%.

"Nas pesquisas, há uma insatisfação crescente. O presidente tem hoje menos popularidade do que os 48% que votaram nele há menos de um ano. Não estão nas ruas apenas os que já eram opositores, mas também os seus próprios eleitores, agora perdidos", avalia o analista político Sergio Berensztein.

"Essas manifestações que costumam ser ignoradas pelo governo podem não ter efeito imediato, mas estão se tornando um foco de resistência ao governo e podem ter um efeito explosivo para a governabilidade", adverte.

Foi o quarto grande "bandeiraço", como são chamados os protestos maciços contra o governo. E a cada novo protesto, aumenta a participação popular.

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