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Trumpistas ainda apostam em reeleição, apesar de favoritismo de Biden

Trumpistas ainda acreditam que vitória é posssível, apesar de pesquisas apontarem vitória de Biden
Trumpistas ainda acreditam que vitória é posssível, apesar de pesquisas apontarem vitória de Biden REUTERS - MIKE SEGAR
Texto por: Ligia Hougland
8 min

As principais pesquisas apontam o democrata Joe Biden como o vencedor das eleições presidenciais americanas, que serão realizadas em 3 de novembro, mas o entusiasmo dos fãs de Donald Trump desafia a lógica: eles estão certos de que as pesquisas estão erradas e seu presidente continuará na Casa Branca por mais quatro anos.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Em 2016, o criador dos quadrinhos Dilbert, Scott Adams, foi um dos poucos a prever que o magnata nova-iorquino derrotaria Hillary Clinton. Tal feito lhe conferiu o status de guru dos Trumpistas, que acompanham fielmente o podcast diário do cartunista. No programa, ele compartilha suas interpretações sobre os últimos acontecimentos da política americana.

A poucos dias da eleição, nesta quarta (28), Adams - que diz dominar a arte da “persuasão”, além de “hipnotismo” - declarou aos seus seguidores que, de acordo com seus pressentimentos, Trump será reeleito. Ele inclusive pediu aos seus eleitores que não se vangloriem demasiadamente, caso o cenário de 2016 se repita.

“Os democratas vão sofrer problemas mentais sérios se [a eleição] não tiver o resultado que querem, e parece que é isso que vai acontecer”, prevê Adams, pois acredita que as pesquisas não refletem a verdadeira opinião pública.

Nate Silver, fundador do site FiveThirtyEight, que analisa os dados de pesquisas de opinião, acredita que Biden tem 88% de chance de chegar à Casa Branca. A confiança do estatístico na sua previsão é tão grande que, nesta segunda (26), ele até mesmo levantou a hipótese de falcatrua, caso não se concretize.  

“A única maneira de Trump ganhar é se houver um grande erro nas pesquisas, maior que em 2016, ou se a eleição for roubada”, tuitou Silver, despertando a ira dos fãs do presidente americano.

Pesquisas erraram sobre vitória de Hillary Clinton

Os grandes institutos de pesquisa eleitoral americanos ainda sofrem as consequências de suas previsões quase unânimes de que Hillary derrotaria Trump em 2016. Apesar de sua credibilidade ter sido significativamente abalada, os dados da época não estavam tão errados quanto os americanos acreditam.

De fato, a maioria das pesquisas acertaram em relação ao voto popular ao determinar a liderança de Hillary. No estado da Pensilvânia - que praticamente selou a eleição de Trump -, a ex-secretária de Estado perdeu por menos de 1%, ou seja, um valor que integrava a margem de erro. Mas, se errarem novamente, mesmo que por pouco, isso pode significar o fim dos institutos, já que dependem de uma sólida reputação de produzir previsões precisas. 

Algo que tem caracterizado esta eleição presidencial americana é que os dados de intenção de voto permanecem estáveis há meses, sempre indicando a liderança de Biden, tanto no voto popular quanto em colégios eleitorais. Para ser eleito, um candidato precisa contar com pelo menos 270 dos 538 colégios eleitorais.

Estudantes e minorias

Apesar de Trump ter apenas 12% de chances de ser reeleito, de acordo com a maioria das estatísticas, o presidente ainda tem esperanças e continua a fazer pelo menos dois comícios por dia. O impacto desse esforço final é incerto, sobretudo porque 75 milhões de americanos - ou seja, cerca de um terço dos eleitores registrados -  já votaram antecipadamente ou pelo correio. Mas existem algumas variáveis que podem ajudar Trump.

Com o lockdown provocado pela pandemia da Covid-19, muitas universidades continuam oferecendo apenas aulas online. Isso significa que os jovens estão menos expostos ao tradicional ativismo liberal que faz parte da vida em campus universitário. Esses estudantes estão passando mais tempo em casa com os pais, que podem estar sentindo no bolso o golpe que a economia americana sofreu, principalmente no caso de pequenos negócios.

Trump não é fã do lockdown. Nos seus comícios, ele promove a reabertura das escolas e o retorno à rotina normal. É nos estados governados por democratas, como Nova York e Illinois, que as medidas de contenção da pandemia por distanciamento social têm sido mais severas. Isso pode fazer com que muitos jovens acabem votando de modo pragmático, deixando a ideologia de lado.

“Gosto mais da plataforma de Biden em muitos aspectos. Mas vejo a preocupação dos meus pais com medo de não conseguir pagar as contas e, por isso, acho que vou votar no Trump”, diz S. Petersen, estudante de 19 anos, em Pittsburgh, que teve de voltar a morar com os pais na Flórida. O pai da menina, que é engenheiro de som de grandes artistas da música pop, teve todos seus contratos cancelados.

Apesar de o candidato democrata acusar o presidente americano de racismo, segundo as médias de setembro, Trump deve ter um número recorde de votos de minorias para um candidato republicano, ficando com cerca de 36% dos votos dos hispanos (+17 na margem, em relação em 2016) e 9% dos eleitores negros (+11 na margem, em relação a 2016).

Ironicamente Biden, que tem a justiça social como prioridade de sua plataforma, perdeu votos dessas minorias que, até então, eram dos democratas e conquistou mais votos de eleitores brancos com nível universitário, 55% (+17 em relação aos votos para Hillary em 2016).

Se nos próximos dias, Trump conseguir convencer mais eleitores de minorias a irem às urnas na próxima terça (3) - especialmente em estados que decisivos e com grande representação desses grupos de eleitores, como Geórgia, Flórida e Arizona - isso pode garantir sua reeleição.

A campanha republicana afirma que as pesquisas publicadas pela grande imprensa não refletem a verdadeira opinião pública, promovendo a ideia de que há uma maioria silenciosa que se recusa a participar de pesquisas ou até mesmo fornece dados errados aos pesquisadores.

Segundo as pesquisas, cerca de 66% dos eleitores acreditam que as pessoas não falam a verdade ao participarem de pesquisas. O historiador e analista político Victor Davis Hanson também aposta nessa possibilidade.

“As pessoas que não dizem que apoiam Trump e são contra a plataforma progressiva dos democratas porque têm medo de sofrer retaliação, podem, finalmente, expressar como se sentem ao irem às urnas”, diz o acadêmico.

Trump é favorito em regiões cruciais

O comentarista político pró-Trump Kevin McCullough diz que as únicas pesquisas confiáveis são aquelas realizadas internamente pelas próprias campanhas. Segundo ele, os dados que recebe de membros das equipes democrata e republicana que compartilham os resultados das suas pesquisas internas são compatíveis e ilustram uma disputa bem mais apertada do que indicam as principais pesquisas. “Não acreditem nas pesquisas da mídia, elas são lixo”, diz McCullough.

Segundo o comentarista, as pesquisas das próprias campanhas indicam que Trump e Biden estão empatados no disputado estado de Wisconsin, e Trump tem uma vantagem de 2% a 3% em estados decisivos como Arizona, Flórida, Carolina do Norte, Arizona e Michigan. Além disso, McCullough diz que o atual presidente pode até mesmo também ganhar no voto popular.

Esse cenário, embora animador para os eleitores republicanos, é implausível segundo dados divulgados pelas grandes pesquisas independentes. Além disso, os estatísticos lembram que é muito pequena a chance de novamente acontecer uma vitória surpreendente de Trump, pois agora há poucos indecisos (cerca de 4%, contra 15% em 2016). Mas muitos eleitores acreditam que em um ano já tão imprevisível e tumultuado com impeachment e pandemia, tudo é possível.

O cenário de um resultado eleitoral contestado, que pode ter de ser decidido pela Suprema Corte, já é visto como bastante provável. E não é descartada nem mesmo a possibilidade - cerca de 1% - de haver um empate, com cada um dos candidatos tendo 269 colégios eleitorais. Nesse caso, o Congresso decidiria a disputa escolhendo um candidato de cada partido como presidente e vice. Assim, é possível até mesmo Trump ocupar a Casa Branca por mais quatro anos, tendo como vice Kamala Harris, a atual colega de cédula do seu rival Biden.  

 

 

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