Sem definição, Equador pode conviver com limbo eleitoral durante mais de uma semana

Funcionários eleitorais contam os votos após o encerramento das urnas durante as eleições presidenciais, em Quito, Equador 7 de fevereiro de 2021
Funcionários eleitorais contam os votos após o encerramento das urnas durante as eleições presidenciais, em Quito, Equador 7 de fevereiro de 2021 REUTERS - SANTIAGO ARCOS

Com 98,15% dos votos apurados, o Equador continua sem saber quem disputará o segundo turno em 11 de abril. Mesmo sem resultado, os candidatos já começam a pedir uma recontagem dos votos. A definição da segunda vaga entre o líder indígena Yacu Pérez e o conservador Guillermo Lasso altera as chances do já confirmado Andrés Arauz, cuja eleição representa uma esperança para o ex-presidente Rafael Correa, condenado por corrupção, poder voltar ao país sem ser preso.

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

Resta apenas 1,85% dos votos a serem apurados, mas continua a indefinição sobre quem vai disputar o segundo turno contra Andrés Arauz, quem já garantiu a sua vaga com 32,04% dos votos válidos.

O líder do movimento indígena Yacu Pérez mantém-se à frente com 20,12% dos votos, enquanto o ex-banqueiro Guillermo Lasso obtém 19,48%. A escassa diferença de 0,64%, embora se mantenha há mais de 24 horas, impede uma conclusão do cenário para o segundo turno.

Porém, mesmo que a apuração termine, uma previsível recontagem dos votos pode adiar a definição, mantendo o país num limbo eleitoral.

Recursos

"O assunto ainda vai levar vários dias, dependendo dos recursos que as organizações políticas apresentarem, exercendo o seu direito", indicou José Cabrera, porta-voz do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) durante entrevista coletiva.

Segundo Cabrera, os menos de dois pontos restantes para o fim da apuração "são urnas de localidades remotas de difícil acesso que chegarão por via fluvial ou aérea".

"Depois que a contagem oficial terminar, os candidatos, se não estiverem satisfeitos, vão poder entrar com recursos legais. O resultado definitivo só virá depois que esses processos forem resolvidos pelo Tribunal Eleitoral", explicou.

Além das urnas distantes, o CNE está revisando 13,96% dos boletins eleitorais devido a inconsistências.

Limbo eleitoral

"A mínima diferença entre os candidatos praticamente garante que esse será o passo a ser tomado tanto pelo candidato que entrar para o segundo turno quanto para o que ficar de fora. Um vai querer garantir a sua vaga; o outro, tirar a vaga daquele", avalia à RFI o cientista político equatoriano Simón Pachano, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO).

"Vão impugnar urnas e procurar erros onde perderam. Vão pedir uma recontagem. É provável que não haja uma definição por mais uma semana, pelo menos. E o país vai continuar nessa expectativa", prevê Pachano.

De fato, logo depois de o porta-voz do Conselho Nacional Eleitoral advertir sobre uma indefinição "por vários dias", o candidato do movimento indígena Pachakutik, Yacu Pérez, quem tem denunciado tentativas de fraude desde o começo da contagem de votos no domingo (7), agora pede a abertura de urnas para uma recontagem, voto a voto, nas três províncias com maior número de eleitores.

"Tiraram 15 pontos da nossa votação e transferiram a outros candidatos", denuncia Yacu Pérez. "A única maneira de evidenciar isso é abrindo as urnas para uma contagem voto a voto nas províncias de Guayas, Pichincha (onde está a capital Quito) e Manabi", acusou Pérez, anunciando que vai apresentar uma denúncia formal nesta terça-feira (9) para pedir essa recontagem dos votos.

Mobilização indígena

O candidato que aparece em segundo lugar sugere uma confabulação de fraude entre o candidato que chegou em primeiro lugar, Andrés Arauz, com o candidato que está na terceira posição, Guillermo Lasso, para deixá-lo de fora da disputa.

Representantes dos movimentos indígenas, os mesmos que promoveram os mega protestos de outubro de 2019, avisaram que, diante de possíveis fraudes, haverá mobilizações sociais nas ruas da capital, Quito.

A Organização dos Estados Americanos, observadora do processo eleitoral, pediu calma.

"Tem pânico de estarmos nós no segundo turno", disse Yacu Pérez, em referência ao ex-presidente Rafael Correa.

Yacu Pérez ameaça planos de Correa

Se a disputa no segundo turno for entre as duas esquerdas, a de Andrés Arauz e a de Yacu Pérez, as chances de Yacu Pérez são maiores, garantem os analistas.

Andrés Arauz tem uma base sólida de votos do ex-presidente Rafael Correa, mas também tem muita resistência do voto anti-Rafael Correa. Em outras palavras, tem um piso alto, mas um teto baixo.

Já Yacu Pérez colhe votos de uma nova esquerda, conectada com os jovens, com o meio ambiente e com os movimentos sociais. Também colhe votos anti-Rafael Correa, que o candidato Andrés Arauz representa.

"Yacu Pérez teria boas chances de ganhar porque existe muita resistência a votar num candidato de Rafael Correa. Esse voto anti-Correa pode ir a Yacu Pérez. Além disso, aqueles que votaram em Lasso devem preferir Yacu Pérez por ser uma esquerda mais moderada", acredita Simón Pachano.

Anistia?

Durante os dez anos de Rafael Correa no posto (2007-2017), a forte intervenção do Estado na economia e do Executivo no Legislativo e no Judiciário fizeram do Equador um Estado autoritário com uma hiper concentração de poder.

O protesto social foi criminalizado. A imprensa foi proibida de investigar casos de corrupção. O movimento indígena e opositores foram perseguidos.

Se Arauz for eleito, Rafael Correa, aliado do chavismo na Venezuela, residente na Bélgica, voltaria ao país com um indulto ou com uma anistia por estar condenado a oito anos por corrupção. Essas intenções já foram anunciadas pelo próprio Arauz.

"Mas, se Yacu Pérez for eleito, esse plano vem abaixo e eu arriscaria afirmar que o 'correísmo', como corrente política, acaba", conclui Simón Pachano, da FLACSO.

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