Biden precisa negociar de forma urgente acordo nuclear com Irã, rompido por Trump

Quando Trump retirou os EUA do acordo nuclear, tudo perde sua validade e o vácuo deixado no Irã e o retorno da crise econômica que ainda não havia sido aplacada, abre uma oportunidade para que a China.
Quando Trump retirou os EUA do acordo nuclear, tudo perde sua validade e o vácuo deixado no Irã e o retorno da crise econômica que ainda não havia sido aplacada, abre uma oportunidade para que a China. GETTY IMAGES

Um dos primeiros e mais urgentes compromissos do Presidente americano Joe Biden no campo da política externa, é recomeçar as negociações com o Irã, para refazer o acordo nuclear desmantelado pelo ex-Presidente Donald Trump. O P5+1, grupo de países que negociou o acordo nuclear com o Irã, ainda na administração de Barack Obama, enxerga uma possibilidade da retomada das conversas e entendem que o momento é crítico para que um acordo seja concluído.

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Thiago de Aragão, analista político

Esse ano o governo iraniano ordenou uma aceleração no programa nuclear iraniano, aumentando tensões não só na região mas também entre outras potências. Durante as negociações do acordo original, a grande contrapartida dada pelos países do P5+1 ao Irã, foi levantar algumas sanções que impediam qualquer possibilidade de geração de estabilidade econômica dentro do regime iraniano. Em compensação, os iranianos diminuíram a velocidade e o escopo do seu programa nuclear, além de autorizar as inspeções periódicas de técnicos da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Quando Trump retira os EUA do acordo, ele deixa um vácuo no Irã. O retorno da crise econômica, que ainda não havia sido aplacada, abre uma oportunidade para que a China fechasse um acordo estratégico robusto com o Irã, oferecendo linhas de crédito onde os pagamentos seriam feitos por meio da exportação de barris de petróleo.

China se aproveita do vácuo deixado pelos EUA

Essa relação com a China é o que impede que o Irã tenha mais "sede" para negociar com os P5+1. Essa semana, o governo iraniano rejeitou um convite para sentar e negociar com os americanos. Naturalmente, os iranianos estão aumentando o custo da negociação, já que a asfixia econômica não é a mesma de durante a primeira negociação com o grupo.

Biden precisará aumentar seu poder de barganha, visando combinar pressão econômica (e potencialmente militar) com oportunidades de retiradas profundas de sanções. Biden sabe o que o Irã quer e o Irã sabe que o principal problema para os EUA não é entregar isso, mas convencer a fraturada política americana de que vale a pena abandonar sanções e dar um voto de confiança ao regime de Khamenei. Os dois países já traíram a confiança um do outro diversas vezes. Desta vez, com a China segurando as pontas econômicas no Irã, Washington terá de oferecer mais para ter o que quer e corrigir o erro de Trump.

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