Migrantes são expulsos dos EUA por meio de lei sanitária de 1944 adotada por Trump e mantida por Biden

Migrantes sem documentos atravessam o rio Grande, a partir de Ciudad Juárez, no México, com destino a El Paso, nos Estados Unidos, em março de 2021.
Migrantes sem documentos atravessam o rio Grande, a partir de Ciudad Juárez, no México, com destino a El Paso, nos Estados Unidos, em março de 2021. Pedro PARDO AFP

É cada vez maior o número de migrantes que desembarcam no norte do México, expulsos dos Estados Unidos. Atraídos pela política migratória anunciada pelo presidente norte-americano Joe Biden, que prometeu ser mais favorável aos estrangeiros que vivem no país, eles são alvo de uma lei de defesa sanitária defendida desde o início da pandemia por Donald Trump e que continua sendo aplicada pelo novo chefe da Casa Branca. O texto tem servido de argumento para continuar as expulsões, muitas vezes enganando os migrantes antes de mandá-los de volta para o território mexicano.

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Com informações de Alix Hardy, enviada especial da RFI à Ciudad Juarez

Eles conseguiram entrar nos Estados Unidos na segunda-feira (29), após uma longa viagem. Mas nessa terça-feira (30), já estavam de volta ao México. “Nos fizeram entrar em um avião sem dizer para onde iríamos. Deveríamos ir para um centro de detenção norte-americano para continuar o processo administrativo nos Estados. E agora, surpresa: estamos em Juarez. O golpe é duro”, conta Jayson, um hondurenho de 26 anos acompanhado do filho de apenas 2 anos.

“Mentiram para eles para expulsá-los mais facilmente”, explica Victor psicólogo de uma ONG em Juarez, que observa o movimento constante de migrantes sendo enviados de volta poucos dias ou, algumas vezes, apenas horas após terem cruzado a fronteira. “Quando chegam aqui, as autoridades mexicanas dizem que eles serão colocados em refúgios, mas os centros de acolhimento estão lotados em Juarez. Não tem mais lugar”, avisa.

Como Jayson e seu filho, várias outras famílias foram expulsas dos Estados Unidos recentemente vítimas do “Título 42”, uma lei norte-americana que autoriza o fechamento das fronteiras para evitar a entrada de doenças no país. Datando de 1944, o texto começou a ser defendido e usado novamente pelo ex-presidente Donald Trump como pretexto para expulsar migrantes, alegando a prevenção à propagação da pandemia de Covid-19. E Biden, que durante sua campanha eleitoral deu sinais de que adotaria uma política migratória menos rígida, continua usando essa mesma lei para enviar migrantes de volta para o outro lado da fronteira.

 “Os Estados Unidos usaram a pandemia para justificar uma política totalmente arbitrária”, afirma Blanca Navarrete, ativista defensora dos direitos dos imigrantes. “Desde a eleição de Joe Biden, ouvimos muitas vezes que os migrantes podem, em teoria, ter novamente acesso a uma política de asilo, ao contrário da era Trump. Mas, na realidade, por causa dessa lei, esse direito permanece inacessível. É uma maneira de semear a incerteza para dissuadir ainda mais os migrantes”, avalia.

Migrantes se entregam à polícia pensando que serão acolhidos

O governo Biden já pediu que os migrantes parem de tentar entrar nos Estados Unidos, avisou que a fronteira mexicana estava fechada e alertou para o perigo da travessia. Mesmo assim, os vizinhos do sul continuam cruzando a fronteira ilegalmente. Muitos atravessam o Rio Grande com crianças no colo e, na esperança de que a política do novo chefe da Casa Branca os acolha, se entregam espontaneamente às patrulhas fronteiriças do lado norte-americano. Sem saber que serão mandados de volta em razão da medida sanitária.

Apenas em fevereiro, mais de 100 mil pessoas sem documentos foram presas na fronteira ao sul dos Estados Unidos, entre elas cerca de 9.500 menores desacompanhados. A maior parte deles fogem da pobreza e da violência das gangues em Honduras, Guatemala e El Salvador.

O governo mexicano contabilizou a presença de mais de 31 mil clandestinos em seu território entre janeiro e março de 2021, um número 18% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.

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