Estilo mais "ordenado" de Biden irrita mais Pequim do que Trump

Reunião entre representantes dos EUA e da China, em Achorage, no Alasca.
Reunião entre representantes dos EUA e da China, em Achorage, no Alasca. AP - Frederic J. Brown

Após a reunião não tão bem-sucedida entre EUA e China em Achorage, no Alasca, as tensões entre os dois países voltaram a subir consideravelmente. Antes das eleições, conversando com estrategistas de política externa em Washington, muitos acreditavam que as tensões entre os dois países piorariam com uma vitória de Joe Biden. Hoje, podemos perceber que essa é exatamente a situação que estamos vivendo. Se Trump era espalhafatoso e gostava de provocar sempre com um olho nos seus seguidores de Twitter, Biden ataca de uma forma mais ordenada, o que irrita mais Pequim do que seu antecessor._–

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Thiago de Aragão, de Washington*

O temor chinês de que os EUA conseguiriam formar uma aliança com diversos países para pressionar Pequim em duas vertentes – direitos humanos e propriedade intelectual – vem se materializando a cada dia que passa. Uma prova disso foi o discurso de abertura do Secretário de Estado americano, Anthony Blinken, em Anchorage, quando deixou claro que a postura chinesa em relação à região de Xinjiang, Hong Kong e Taiwan ameaçavam a ordem e a segurança internacional. Naturalmente, o representante chinês Wang Jiechi respondeu na mesma linha, acusando os EUA de violações de direitos humanos nos países no qual intercedeu militarmente e em relação à sua própria população, lembrando dos embates entre policiais e a população afro-americana.

De qualquer forma, o que nós vimos logo em seguida foi uma sequência de sanções americanas contra indivíduos do Partido Comunista Chinês, transformando-os em párias do sistema financeiro internacional. A resposta chinesa veio na mesma moeda, com sanções individuais contra cidadãos americanos e canadenses, mesmo que, na prática, isso não os afete com a mesma profundidade que afeta os chineses sob sanção americana.

A tendência nas próximas semanas é de que novas sanções dos EUA (e do Canadá) em relação a membros do Partido Comunista ocorram e que retaliações cada vez mais emblemáticas pelo lado chinês também surjam. Um dos exemplos são as sanções que a mídia chinesa e lojas virtuais já estão aplicando contra marcas americanas e europeias como Nike, H&M e Burberry. Isso ainda é pouco (dos dois lados), perante o nível de oposição que um país já tem em relação ao outro.

A preocupação número 1 dos americanos em relação à China segue sendo Taiwan, onde a possibilidade de invasão chinesa à ilha já é avaliada em Washington como algo "muito provável" nos próximos anos. As incursões aéreas de caças e bombardeiros chineses perto da ilha não são apenas sinais para os americanos, mas também treinamentos para um futuro próximo.

China é ponto de convergência de Biden com republicanos

À medida que Biden levanta o tom contra a China, a aproximação da Casa Branca para com parlamentares republicanos moderados melhora. Isso porque a China é um dos poucos pontos de convergência entre os dois partidos no momento. A postura de Blinken e de outros em relação à China vem agradando, de uma forma geral, os formadores de opinião em Washington, tanto democratas quanto republicanos. Já pelo lado chinês, o sentimento em Pequim é que não há abertura para um retorno às relações cordiais que existiam há alguns anos.

O foco na corrida tecnológica segue sendo, pelo lado chinês, a autosuficiência em semicondutores, já que este é um setor no qual a China está atrás e reconhece. Por outro lado, em relação à Taiwan, não haverá um arrefecimento chinês, já que isso é, para Pequim, algo muito maior do que uma política momentânea de Xi Jinping. Trazer a "província rebelde" de volta para o território e impedir que questões de direitos humanos afetem a imagem da China no exterior são os grandes objetivos de médio prazo do Partido Comunista Chinês.

Thiago de Aragão é analista político

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