Processo Floyd : Testemunho de chefe da polícia de Minneapolis complica defesa de Chauvin

O chefe da Polícia Municipal de Minneapolis Medaria Arradondo testemunha no julgamento do policial Derek Chauvin
O chefe da Polícia Municipal de Minneapolis Medaria Arradondo testemunha no julgamento do policial Derek Chauvin STR POOL VIA COURT TV/AFP

O testemunho foi excepcional e muito embaraçoso para Derek Chauvin no sexto dia do julgamento do ex-policial acusado do assassinato de George Floyd. O chefe da polícia de Minneapolis Medaria Arradondo estimou que seu ex-oficial violou completamente as regras em vigor sobre o uso de força policial municipal na ação que resultou na morte de Floyd. 

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Com o correspondente em São Francisco, Eric de Salve

Um chefe de polícia testemunhando contra um de seus subordinados é uma situação quase inédita nos Estados Unidos. Questionado pela acusação, Medaria Arradondo, vestido com seu uniforme na sala de audiências, detonou um dos principais argumentos de defesa de Derek Chauvin.

"Sim, absolutamente", respondeu o chefe da polícia de Minneapolis, "Derek violou não apenas seu treinamento, mas também os regulamentos da polícia ao imobilizar George Floyd com seu joelho apoiado na nuca dele por mais de nove minutos". Na sequência, Arradondo acrescentou: "O fato de manter tal nível de força em alguém que já está com o rosto contra o chão e algemado pelas costas não corresponde à nossa política, nosso treinamento e certamente também não está de acordo com nossa ética ou nossos valores. A inviolabilidade da vida deve continuar sendo um pilar de nossa ação", disse no tribunal.  

Não é o julgamento da polícia

O testemunho do chefe da polícia é devastador para a defesa de Chauvin que dificilmente pode contestar sua credibilidade. Medaria Arradondo é muito popular em Minneapolis. Ele é o primeiro afroamericano a liderar o Departamento de Polícia Municipal. Foi ele quem demitiu Derek Chauvin e também qualificou a morte George Floy, em maio de 2020, de "assassinato". Ao testemunhar no tribunal, Arradondo faz com que este julgamento fique restrito ao comportamento de Derek Chauvin, e não da polícia que ele mesmo prometeu reformar.

Antes mesmo de Arradondo, outros ex-companheiros de Chauvin já haviam testemunhado contra seu antigo colega, denunciando o uso desproporcional da força contra George Floyd.

Um deles foi o chefe do Departamento de Homicídios, tenente Richard Zimmermann, um policial há quase 30 anos na função, sendo 25 deles atuando em Minneapolis. Chamado pela acusação a dar seu testemunho, ele qualificou o nível de força que Derek Chauvin usou contra George Floyd de "totalmente desnecessário". Força excessiva, justificou ele, porque era letal.

"Colocá-lo com o rosto para baixo com um joelho no pescoço por tanto tempo não se justifica. Não me ocorre nenhum motivo pelo qual os policiais se sentiriam ameaçados", disse Zimmermann. "De fato, uma vez que um suspeito é algemado, o risco de ser ferido é muito reduzido", afirmou.

Richard Zimmerman também explicou que foi informado durante o treinamento sobre os riscos de deixar alguém deitado com a barriga voltada para o chão. "Você tem que sair dessa posição o mais rápido possível, pois ela dificulta a respiração". E, acrescentou: "quando você algema alguém, ele está sob seu domínio, a segurança e saúde dele são de sua responsabilidade", mesmo que uma ambulância tenha sido chamada.

Veredito 

O tenente Zimmermann foi o segundo policial da alta hierarquia da Polícia de Minneapolis a testemunhar contra Derek Chauvin. Seu testemunho fechou uma semana difícil para os jurados, que foram confrontados com testemunhas da tragédia, que ainda estavam muito abaladas, e uma avalanche de vídeos chocantes. A morte de George Floyd foi filmada de vários ângulos por câmeras de vigilância, filmagens de policiais e telefones celulares de pedestres.

O processo de Derek Chauvin deverá durar ainda de duas a três semanas e o veridito deve ser anunciado no final de abril ou início de maio. Os três outros policiais que participaram da ação, Alexander Kueng, Thomas Lane et Tou Thao, serão julgados em agosto por "cumplicidade de assassinato". 

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