Covid-19: milhares de argentinos protestam em Buenos Aires contra o fechamento das escolas

"A educação é essencial", diz cartaz de participante de protesto contra o fechamentos das escolas na Argentina. Buenos Aires, 17 de abril de 2021.
"A educação é essencial", diz cartaz de participante de protesto contra o fechamentos das escolas na Argentina. Buenos Aires, 17 de abril de 2021. AP - Victor R.Caivano

O terceiro protesto contra o fechamento das escolas argentinas levou milhares de pessoas às ruas de Buenos Aires no sábado (17). Confrontos com a polícia foram registrados a partir das 20h, quando tem início o toque de recolher noturno.  

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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Famílias começaram a ocupar as principais ruas de Buenos Aires no final da tarde de sábado. Vários grupos se dirigiram a pontos emblemáticos de poder como a Praça de Maio, em frente à Casa Rosada. Diante da residência presidencial de Olivos, nos arredores da capital argentina, a maioria dos participantes eram mães e professoras, acompanhadas pelos filhos. 

Nas janelas dos prédios, pessoas batiam panelas. Pelas ruas, buzinas marcavam o ritmo dos slogans entoados pelos manifestantes. Eles exigem que as escolas sejam reabertas a partir de segunda-feira (19). 

O objetivo do ato é pressionar o presidente argentino, Alberto Fernández, a revisar o decreto que impõe, até pelo menos 30 de abril, o fechamento de escolas. Essa foi a terceira noite de protestos, convocados através das redes sociais, contra a suspensão das aulas presenciais.

Direito à educação

"Estamos aqui para gritar, para mostrar que o povo é soberano e que não aceita ser atropelado nos seus direitos. E o primeiro desses direitos é a educação. Queremos que as autoridades nos escutem", explicou à RFI Claudia Rucci, de 44 anos, professora do ensino fundamental.

"Sabemos como foi no ano passado e sabemos como isto continua. Os 14 dias previstos para a medida logo se tornarão meses. Essa falta de aulas presenciais afeta a aprendizagem das crianças, que perdem o conteúdo e o vínculo social, comprometendo a saúde integral deles", afirma Claudia.

Ao seu lado, a filha Íris, de 10 anos, concorda. "Eu me sinto feliz quando vou ao colégio. Vejo as minhas amigas e a minha professora. Não é a mesma coisa através do computador", diz.

No ano passado, a Argentina realizou o mais longo lockdown do mundo, com 233 dias de um isolamento que fechou as escolas em todo o país. Foi um ano letivo perdido. Desde a última sexta-feira (16), passaram a valer novas medidas de restrição que incluem um toque de recolher a partir das 20 horas.

"O presidente prometeu vacinas, prometeu testes, prometeu que as escolas não seriam fechadas porque não contagiam. Não cumpriu com nada do que prometeu. Na boca de um mentiroso, mesmo o certo fica duvidoso", diz à RFI Marcela Ojeda, de 48, anos, erguendo o cartaz "Pais organizados: não fechem as escolas".

"Se não sairmos às ruas para defender as aulas agora, vão pensar que estamos de acordo. Então, os 14 dias serão facilmente prolongados", prevê Ojeda.

Ao seu lado, a filha María Luz, de 11 anos, exibe o cartaz: "Queremos os colégios abertos" e diz que, em sua escola, não houve nenhuma contaminação. "Não tiramos nunca a máscara, nem no recreio. Ficamos separados na sala de aula. Não deveriam fechar o meu colégio", lamenta.

Fernández não pretende ceder à pressão

Os manifestantes colaram os cartazes na porta da residência presidencial, na expectativa que o presidente argentino reveja a decisão. No entanto, na sexta-feira, Fernández declarou que "a decisão está tomada e não será alterada".

Na cidade de Buenos Aires, no primeiro mês de aula de 2021, apenas 0,17% de professores e alunos foram infectados. Entre 17 de março e 12 de abril, os casos registraram um leve aumento: 0,71%. A maioria dos contágios aconteceu fora das escolas.

O próprio Ministério da Educação avaliou que em 5.926 estabelecimentos de ensino, apenas 0,16% dos alunos e 1,03% dos professores foram contaminados.

Fernández alegou que "o problema não é dentro do colégio, mas na circulação que as aulas provocam". No entanto, o Ministério da Educação indica que 50% das crianças vão a pé às escolas, 20% de carro e 30% utilizam os transportes públicos.

Protesto não acata toque de recolher

Conforme as horas se passaram, o perfil do protesto mudou. Pais e filhos deram lugar a pessoas contra outras medidas de restrição, como o toque de recolher entre as 20h e as 6 horas, a proibição de atividades recreativas, sociais, culturais, esportivas e religiosas, o fechamento dos shopping centers e a limitação do uso dos transportes públicos aos trabalhadores de atividades essenciais.

Até o final da noite de sábado, centenas de pessoas continuavam em frente à residência presidencial, cercada por duas filas das forças de segurança. Com bandeiras argentinas, batuques e aos gritos de "Liberdade", os manifestantes desafiaram o toque de recolher. Os cartazes exibiam mensagens como "Desobediência Civil" e "Não acate o toque de recolher".

Houve tumulto e confrontos entre a polícia e manifestantes, tanto em frente à residência presidencial quanto em frente à Casa Rosada. Alguns grupos avançaram contra a barreira formada pelos policiais que se defenderam, dispersando os mais exaltados. Mesmo controlada, a tensão continuou até o final do protesto.

Na sexta-feira, o governo do Distrito Federal de Buenos Aires entrou com um pedido de liminar na Corte Suprema contra o fechamento de escolas. As autoridades locais argumenta que as escolas não são foco de contágio e que a medida do governo federal é inconstitucional por não respeitar a autonomia da capital argentina.

A Corte Suprema não tem prazo para uma reunião, mas os protestos também visam influenciar nessa decisão. Na segunda-feira (19), milhares de pais vão levar os filhos aos seus respectivos colégios para um abraço em torno de cada instituição. Em seguida, os manifestantes prometem se reunir, novamente, em frente à residência presidencial.

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