Na ONU, Bachelet pede investigação 'independente' sobre mortes por violência na Colômbia

Michelle Bachelet, na tela, durante seu discurso na abertura da reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em 27 de maio de 2021.
Michelle Bachelet, na tela, durante seu discurso na abertura da reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em 27 de maio de 2021. Fabrice Coffrini AFP

A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, expressou sua preocupação neste domingo (30) com a violência que abalou a cidade colombiana de Cali, sob controle militar no contexto dos protestos antigovernamentais, e pediu uma investigação "independente" sobre as mortes.

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“É essencial que todas as pessoas que supostamente causaram ferimentos ou morte, incluindo funcionários do Estado, sejam submetidas a investigações rápidas, eficazes, independentes, imparciais e transparentes, e que os responsáveis ​​sejam responsabilizados ​​perante a lei”, disse Bachelet em um comunicado.

O Exército reforçou a segurança da terceira cidade colombiana no sábado (29), em face da violência que matou 13 pessoas no dia anterior, em meio aos protestos que eclodiram há um mês contra o governo de Iván Duque

Na noite de sábado, apenas alguns veículos e pessoas foram vistos nas ruas, onde manifestantes, policiais e civis armados com rifles se enfrentaram no dia anterior. Restos de barricadas e escombros refletem o caos que envolveu esta cidade de 2,2 milhões de habitantes, sob toque de recolher noturno.

Treze pessoas morreram na sexta-feira em diferentes episódios, incluindo um promotor público que matou com sua arma dois manifestantes que bloqueavam uma estrada. A multidão se lançou sobre o homem - que estava de folga - e o linchou, de acordo com o órgão de investigação.

“No sul da cidade tivemos (...) quase uma guerra urbana onde muitas pessoas não só perderam a vida, mas também tivemos um número significativo de feridos”, disse o secretário de Segurança Carlos Rojas à Rádio Caracol. Pelo menos oito mortes foram por arma de fogo, segundo a polícia colombiana.

“Peço que todas as formas de violência, inclusive o vandalismo, sejam eliminadas e todas as partes continuem se manifestando, para que seja garantido o respeito à vida e à dignidade de todas as pessoas”, declarou Bachelet.

Em um mês de protestos, pelo menos 59 pessoas morreram. Os feridos ultrapassam 2.300 entre civis e soldados, segundo o Ministério da Defesa. A ONG Human Rights Watch afirma ter recebido "relatórios credíveis" de 63 mortes, 28 delas relacionadas com as manifestações.

Duque ordenou a Cali o envio de tropas sob o ptretexto de assistência militar que capacita o exército a apoiar a polícia nas tarefas de controle.

Civis "massacrados"

Um total de 1.141 soldados assumiram a vigilância de Cali. Em um decreto assinado na noite de sexta-feira, Duque ativou um dispositivo de apoio militar de cerca de 7.000 homens para 10 departamentos afetados por bloqueios de estradas.

Desde 28 de abril, multidões se mobilizam diariamente para protestar contra o governo pelos abusos da polícia e pelo manejo da crise econômica provocada pela pandemia.

A sexta-feira foi particularmente violenta em Cali. “Estávamos em uma atividade cultural com as pessoas porque já estávamos contabilizando um mês de desemprego” no bairro de Meléndez (sul), “quando foram ouvidos tiros”, disse uma testemunha que pediu para não expor seu nome por medo.

"Eles começaram a massacrar pessoas. Eles eram cerca de cinco figuras em roupas de civis, escondidos atrás das árvores", disse o desempregado de 22 anos. Vídeos que viralizaram nas redes dão suporte à versão do colombiano.

A polícia garantiu em nota que vai investigar os agentes uniformizados que foram "permissivos com as ações de civis armados". O representante especial do Secretário-Geral da ONU na Colômbia, Carlos Ruiz Massieu, fez um apelo para evitar a "escalada" da violência no país.

Militarização criticada

A Colômbia vive um levante popular sem precedentes, desencadeado uma proposta de Duque de aumentar os impostos sobre a classe média empobrecida, a fim de cobrir o déficit fiscal deixado pela pandemia. O presidente cedeu à pressão das manifestações e abandonou a iniciativa, mas a violência policial agravou o mal-estar.

Os excessos da polícia, que na Colômbia dependem do Ministério da Defesa, foram condenados pela comunidade internacional. Segundo a ONG Indepaz, 43 das mortes foram de "suposta responsabilidade da força pública".

Nos bairros pobres de Cali, onde se registram os piores episódios de violência, a chegada dos militares gera medo. “Não nos sentimos confortáveis, nos sentimos ameaçados, nos sentimos mais em perigo. Na verdade, nossos filhos estão com medo”, lamentou Lina Gallegas, uma líder social de 31 anos da comunidade de Siloé. "Se acontecer alguma coisa não podemos chamar a polícia porque são eles que (...) estão matando."

O governo colombiano evita condenar abertamente a repressão e afirma estar enfrentando o vandalismo e o “terrorismo urbano de baixa intensidade”. Ele também denuncia que grupos guerrilheiros financiados pelo narcotráfico se infiltraram no movimento de protesto.

Luis Felipe Vega, professor de ciência política da Universidade Javeriana, questionou a medida. É como "apagar um incêndio com gasolina", já que um soldado é treinado para "neutralizar uma ameaça", não para controlar protestos, disse ele.

Rejeitado por 76% da população, Duque tenta há duas semanas negociar uma saída da crise com a frente mais visível dos protestos. Mas ele está sob pressão de seu partido, o Centro Democrático (à direita), que exige uma liderança forte num ano eleitoral.

(Com AFP)

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