México: resultados de eleições legislativas enfraquecem presidente Obrador

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, levanta levanta o polegar após votar na Cidade do México, 6/6/21.
O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, levanta levanta o polegar após votar na Cidade do México, 6/6/21. AP - Marco Ugarte

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, sofreu derrotas nas eleições de domingo (6) que enfraqueceram sua maioria na Câmara dos Deputados, segundo a contagem rápida oficial. O partido Morena terá entre 190 e 203 cadeiras, segundo a projeção do Instituto Nacional Eleitoral (INE), e perdeu a maioria absoluta das cadeiras (metade mais um dos 500 deputados) que detinha sozinho.

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No entanto, pode atingir essa maioria com seus três partidos aliados, que podem obter entre 265 e 298 assentos, se a aliança for mantida.

Mesmo assim, a coalizão governista perde a maioria qualificada de dois terços das cadeiras – necessárias para realizar as reformas constitucionais –, que atualmente detém com um total de 333 assentos.

"É uma derrota para López Obrador, não avassaladora, mas enfraquece a ele e a seu projeto porque requer reformas constitucionais", disse à AFP o cientista político e historiador José Antonio Crespo.

A maioria qualificada é fundamental na cruzada antineoliberal do presidente de esquerda, que visa devolver o controle do setor energético ao Estado, contra a corrente de leis que abriram as portas às empresas privadas em 2014.

A nova Câmara dos Deputados, eleita a cada três anos, tomará posse em 1º de setembro. O Senado, também dominado por Morena, é renovado a cada seis anos.

No domingo, 15 dos 32 governadores e mais de 21.000 cargos locais também foram eleitos. Morena teria conquistado pelo menos oito governadorias, o que representa um progresso, já que atualmente lidera seis estados, de acordo com a contagem rápida.

Eleições representaram avanço para oposição

Os partidos Ação Nacional (PAN), Revolução Institucional (PRI) e Revolução Democrática, que se apresentaram em aliança, terão entre 181 e 213 cadeiras. Atualmente, eles ocupam 139.

“É uma vitória importante da oposição porque soube aproveitar o descontentamento, embora a realidade seja que votaram contra López Obrador, não por eles”, disse Crespo.

Morena também perdeu o controle de vários prefeitos da Cidade do México que sempre controlou, de acordo com a contagem oficial preliminar. A esquerda governa a capital desde 1997, mas a prefeitura central não estava em disputa.

Os moradores da capital foram abalados no dia 3 de maio por um acidente no metrô que deixou 26 mortos.

AMLO, sigla pela qual o presidente é conhecido, tem uma popularidade de mais de 60% baseada em vastos programas sociais, segundo pesquisas. O presidente foi eleito em 2018 para um mandato de seis anos.

Desde 1997, as eleições parlamentárias reduziram ou tiraram maiorias dos partidos no governo.

Violência macabra

As eleições foram realizadas em meio aos efeitos devastadores da pandemia e uma escalada de violência que deixou 91 políticos mortos, 36 deles candidatos ou pré-candidatos, de acordo com a consultoria Etellekt.

No domingo, desconhecidos deixaram duas cabeças e outros restos mortais nas seções eleitorais de Tijuana (noroeste, fronteira com os Estados Unidos), duramente atingida pelo tráfico de drogas, informou o Ministério Público.

No dia anterior, cinco indígenas que transportavam material eleitoral foram mortos em uma emboscada no estado de Chiapas, no sul do país, informaram as autoridades.

Essa violência faz parte do banho de sangue que o país vem sofrendo desde 2006, quando o governo da época lançou uma operação militar antidrogas.

Apesar do medo dominador em localidades de estados como Guerrero e Jalisco, o pleito, para o qual foram convocados 95 milhões de eleitores, teve uma participação entre 51,7% e 52,5%, segundo o INE.

Voto polarizado

Embora o México seja um dos países mais atingidos pelo coronavírus, a perspectiva de uma votação punitiva não era clara devido ao declínio da epidemia, de acordo com as pesquisas.

"Infelizmente veio a pandemia. Sem ela, o governo teria sido melhor. Não tenho queixas, é por isso que estou aqui", disse Tania Calderón, uma funcionária de 37 anos, à AFP antes de votar na Cidade do México.

Já Alejandra Bernal, uma estudante de direito de 22 anos, expressou seu desacordo nas urnas. “O México teve a oportunidade de tomar medidas prévias e isso não foi feito. Mas essa responsabilidade é dos governos e dos cidadãos. Meu voto foi a favor”, disse a jovem.

O país, de 126 milhões de habitantes, acumula quase 229.000 mortes por covid-19 – a quarta colocação no mundo em números absolutos – e sua taxa de mortalidade é a vigésima primeira por 100.000 habitantes.

(com informações da AFP)

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