Votos rurais e de peruanos no exterior vão definir apuração no Peru

Keiko Fujimori denuncia "indícios de fraude" na eleição no Peru, mas a missão de observação da Organização dos Estados Americanos (OEA) não menciona irregularidades nas urnas.
Keiko Fujimori denuncia "indícios de fraude" na eleição no Peru, mas a missão de observação da Organização dos Estados Americanos (OEA) não menciona irregularidades nas urnas. REUTERS - SEBASTIAN CASTANEDA

A candidata de direita à presidência do Peru, Keiko Fujimori, denuncia "irregularidades" e "indícios de fraude" na eleição de domingo (6), no momento em que o principal adversário na disputa, o esquerdista Pedro Castillo, mantém uma ligeira vantagem na contagem dos votos. A apuração de eleitores que votaram no exterior pode ser decisiva para o resultado do pleito.

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Na tarde de segunda-feira (7), o professor de esquerda assumiu a dianteira na apuração, mas segue disputando voto a voto com a filha do ex-presidente preso Alberto Fujimori, segundo a contagem do Departamento Nacional de Processos Eleitorais (Onpe). Com 94,3% dos votos apurados, Castillo, 51 anos, somava 50,2% dos votos, contra 49,7% para Keiko Fujimori, 46 anos.

Ao anoitecer, Keiko denunciou "uma série de irregularidades" e "indícios de fraude" em atas das seções rurais, mas garantiu ter fé que poderá reverter o resultado parcial da apuração.

"Há uma clara intenção de boicotar a vontade popular", denunciou Keiko, que mostrou alguns vídeos e fotos para apoiar suas denúncias, entre elas a ata de uma seção rural onde Castillo obteve 187 votos e ela nenhum.

Por sua vez, o partido Peru Livre, de Castillo, solicitou em comunicado que o Onpe "cuide da correta proteção dos dados eleitorais ao processá-los e publicá-los".

A vantagem da candidata de direita diminuiu à medida que eram contadas as atas das seções nas zonas rurais e das florestas peruanas. Também pode ser chave o voto no exterior, com um milhão de eleitores, e que pode demorar 15 dias a ser processado. Fernando Tuesta, ex-diretor do Onpe, diz que há chances de que Castillo "possa vencer, porque falta [contabilizar] parte do voto rural e no exterior". 

A missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que não mencionou irregularidades nas urnas, indicou nesta segunda-feira que "a contagem dos votos foi realizada de acordo com os procedimentos oficiais".

"Embora os cidadãos tenham dado o seu voto, o processo eleitoral continua" e a "conduta [dos candidatos] neste momento é crucial e decisiva para manter o clima de tranquilidade", afirmou o chefe da missão, o ex-chanceler paraguaio Rubén Ramírez, em vídeo postado no Twitter, no qual apoiou o trabalho das autoridades eleitorais peruanas.

"Os resultados que temos até o momento representam um sinal de alerta, um chamado claro e firme à reconciliação e união nacional", destacou o presidente interino, Francisco Sagasti. 

"Só o povo vai salvar o povo", disse Castillo ao pedir moderação a seus seguidores em seu reduto de Tacabamba, no departamento (estado) de Cajamarca, mais de 900 km ao norte de Lima, para onde viajou para aguardar o resultado final.

Keiko, que se manteve em silêncio nesta segunda-feira, havia comentado que os resultados de boca de urna em seu favor deveriam ser vistos com "prudência", porque a margem de diferença era "pequena".

Em meio ao silêncio da candidata, houve chamados à calma entre os apoiadores da líder populista. "Serenidade. Falta processar muitas atas em províncias onde KeikoFujimori reduzirá a diferença em território nacional, depois faltam Estados Unidos, Europa, Chile, etc., onde ela vencerá com ampla margem", tuitou Álvaro Vargas Llosa, filho do ganhador do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa.

Nervosismo na Bolsa

A Bolsa de Valores de Lima fechou em forte baixa, de 7,82%, enquanto o dólar atingiu a cotação recorde de 3,94 soles, diante da incerteza e da sutil vantagem de Castillo. O nervosismo no mercado contrastou com as expressões de alegria no reduto de Castillo, o povoado de Tacabamba, onde cerca de 400 pessoas foram às ruas com lápis gigantes – símbolo da campanha do professor – e bandeiras, confiantes em que seu representante será eleito presidente.

Casada e mãe de duas filhas, Keiko pode se tornar a primeira mulher presidente do Peru, meta para a qual trabalha há 15 anos desde que assumiu a tarefa de reconstruir quase das cinzas o movimento político direitista fundado por seu pai nos anos 1990. Perder no segundo turno não só representaria sua terceira derrota nas urnas, mas o enfrentamento de um julgamento com risco de terminar na prisão. Ela é investigada pelo Ministério Público por suspeita de ter recebido pagamentos ilegais da empreiteira brasileira Odebrecht para suas campanhas eleitorais, um escândalo que também atingiu quatro ex-presidentes peruanos. Ela já esteve 16 meses em prisão preventiva por causa dessas denúncias.

Para Castillo, que saiu do anonimato há quatro anos, ao liderar uma greve de professores, a vitória faria dele o primeiro presidente peruano sem vínculos com as elites política, econômica e cultural do país. Castillo seria o primeiro presidente pobre do Peru, segundo analistas.

O novo presidente tomará posse em 28 de julho em um país que teve quatro chefes de Estado desde 2018 e que registra a maior taxa de mortalidade do mundo na pandemia do coronavírus, com mais de 185.000 mortos em uma população de 33 milhões de habitantes.

Com informações da AFP

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