Economista do FMI analisa contraste entre cenário de crises e estabilidade de mercados na América Latina

O jornal francês Les Echos questiona como, apesar do avanço da pandemia, quando 650 milhões de latino-americanos enfrentam uma catástrofe humanitária, e da crescente insatisfação social, os mercados permanecem impassíveis.
O jornal francês Les Echos questiona como, apesar do avanço da pandemia, quando 650 milhões de latino-americanos enfrentam uma catástrofe humanitária, e da crescente insatisfação social, os mercados permanecem impassíveis. REUTERS - DIEGO VARA

O contraste entre as crises sanitária e sociais e a calmaria dos mercados na América Latina, inclusive no Brasil, é tema da edição desta quinta-feira (08) do diário Les Echos. Sob o título “O vulcão latino-americano começa a roncar novamente”, o economista-chefe do FMI, Kenneth Rogoff, assina um artigo no qual questiona como, apesar do avanço da pandemia e da crescente insatisfação social, os mercados permanecem impassíveis na região.

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“É sem dúvida na América Latina que o contraste entre mercados calmos e tensões sociais é mais marcante”, escreve Rogoff. “A questão é por quanto tempo essa situação pode continuar”, observa.

Por enquanto, os indicadores econômicos do subcontinente continuam melhorando, enquanto o mercado de dívida permanece imperturbável, "como por mágica". Entretanto, a insatisfação está crescendo nas ruas, especialmente na Colômbia. Mas não só lá.

A taxa média de novos casos diários de Covid-19 na América Latina já é quatro vezes a dos países emergentes, quando uma terceira onda da pandemia se instala. Ao mesmo tempo, 650 milhões de latino-americanos enfrentam uma catástrofe humanitária. As incertezas políticas estão aumentando e o investimento de capital estagnou em uma região já atormentada pelo baixo crescimento da produtividade, avalia Rogoff, que também é professor de Economia e Ciências Políticas na Universidade de Harvard.

Para entender os desafios políticos que a América Latina enfrenta, o economista considera as duas grandes potências econômicas da região, Brasil e México, que juntas respondem por mais da metade da produção do subcontinente. À primeira vista, os dois países são governados por homens diametralmente opostos: Jair Bolsonaro, da extrema-direita, no Brasil, e Andrés Manuel López Obrador, de esquerda, no México.

Mas esses dois presidentes se parecem em pontos importantes: ambos são autocratas imprevisíveis e permanecem relativamente populares, apesar de suas gestões catastróficas da pandemia e de uma série de decisões econômicas inadequadas.

“A culpa é do PT”

O artigo afirma que Bolsonaro, quando não ameaça arrasar a Amazônia, atribui os problemas do Brasil ao Partido dos Trabalhadores, lembrando que diversos líderes petistas, inclusive o ex-presidente Lula, foram presos acusados de corrupção.

Já Obrador, que chegou ao poder no final de 2018, cancelou o projeto do novo aeroporto da Cidade do México, quando as obras já estavam em andamento e sua necessidade era urgente. Embora ele fizesse campanha prometendo um crescimento econômico rápido, o PIB do México começou a declinar antes mesmo da pandemia, com queda de 0,1% em 2019.

A publicação afirma que é difícil prever o futuro político desses dois países, uma vez que não se pode descartar que, em alguns anos, o Brasil terá novamente um presidente de esquerda, talvez Lula, e que o México voltará a ser governado por um centrista.

Mas por que os mercados de dívida não têm medo de tanta incerteza?, questiona Rogoff. Em parte, isso se deve ao fato de o Brasil e o México permanecerem bastante conservadores no gerenciamento de suas dívidas. A dívida pública do Brasil deve chegar a quase 100% do PIB este ano, mas é principalmente denominada em moeda local, que os residentes brasileiros detêm em até 90%, ante 80% cinco anos atrás.

Até mesmo o endividamento de empresas estrangeiras foi contido, e a dívida externa do Brasil é de cerca de 40% do PIB. A dívida pública do México, de 60% do PIB, é menor que a do Brasil. Apesar de todo o seu lado radical, Obrador se mostrou até agora um conservador fiscal, como Lula no Brasil. Aparentemente, a lição de que uma crise de dívida pode inviabilizar uma revolução populista foi muito bem compreendida, observa o autor.

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