Covid-19: Cientistas chilenos recomendam terceira dose de CoronaVac depois de seis meses

Um ensaio clínico chileno constatou a queda de anticorpos depois de seis meses de aplicação da vacina chinesa CoronaVac, a mesma usada maciçamente também no Brasil e no Uruguai.
Um ensaio clínico chileno constatou a queda de anticorpos depois de seis meses de aplicação da vacina chinesa CoronaVac, a mesma usada maciçamente também no Brasil e no Uruguai. Lillian SUWANRUMPHA AFP/File

Um ensaio clínico chileno constatou a queda de anticorpos depois de seis meses de aplicação da vacina chinesa CoronaVac, a mesma usada maciçamente também no Brasil e no Uruguai. O governo chileno avalia agora se determinará a necessidade de uma terceira dose, especialmente diante da chegada da variante Delta.

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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

A recomendação de uma terceira dose da vacina CoronaVac, do laboratório chinês Sinovac Biotech, é a principal conclusão do ensaio clínico, realizado pela Universidade Católica do Chile com 2.300 voluntários e apresentado às autoridades do Ministério da Saúde e do Ministério da Ciência nesta quinta-feira (15).

Os cientistas comprovaram uma alta eficácia da vacina durante os seis primeiros meses para evitar casos graves e mortes, mas verificaram uma queda de efetividade após esse período.

"Diante da presença de variantes que requerem um maior nível de anticorpos neutralizantes para bloquear a entrada do vírus e, possivelmente, a doença sintomática, é recomendável que reforços sejam aplicadas a partir do sexto mês, a contar da primeira dose, para ampliar a quantidade de anticorpos neutralizantes circulantes", indicou Alexis Kalergis, líder do ensaio clínico, acadêmico da Universidade Católica e diretor do Instituto Milênio de Imunologia e Imunoterapia.

"Nossos resultados mostram que, seis meses depois da vacinação, ainda são detectados anticorpos neutralizantes e linfócitos T específicos no sangue dos vacinados, mas os níveis são reduzidos quando comparados ao observado na quarta semana depois da segunda dose", explicou Kalergis.

Combinação de vacinas

Quanto à possibilidade de essa terceira dose ser de outro laboratório, o pesquisador ressalta que "ainda falta evidência científica que demonstre segurança e eficácia" para combinar vacinas.

Durante os seis meses do ensaio clínico, dos 2.300 voluntários, apenas 45, equivalentes a 2% dos vacinados com duas doses, foram contagiados, a maioria de forma leve. Somente três pessoas, equivalentes a 0,088%, precisaram de assistência hospitalar. Os três hospitalizados eram idosos com comorbidades. Não houve mortos.

"Em termos de imunidade, observamos que a vacinação induz à produção de anticorpos capazes de neutralizar o vírus, evitando a doença ou diminuindo a sua intensidade. A produção desses anticorpos em alta quantidade foi observada, na maioria dos casos, entre a segunda e a quarta semana depois da segunda dose. Menos da metade das pessoas vacinadas produzem anticorpos neutralizantes entre a primeira e a segunda dose", descreveu Susan Bueno, diretora científica do estudo.

Outra evidência da importância de uma terceira dose veio justamente dos 45 vacinados e contaminados que, ao se recuperarem da doença, geraram ainda mais anticorpos do que os que não se contagiaram.

"Neles, os níveis de anticorpos subiram rapidamente, ficando acima do máximo verificado na segunda ou na quarta semana depois da segunda dose", comparou Susan Bueno.

Estudo será base para decisão do governo

Quanto à variante Delta, os testes de laboratório in vitro verificaram uma redução de quatro vezes no efeito neutralizante da vacina chinesa, maior do que a redução de três vezes apontada antes por cientistas chineses. Até agora, o Chile registrou 18 casos de contágio com a variante Delta, todos provenientes do exterior. Ainda não foi detectada a transmissão comunitária do vírus.

Com base nesse estudo, o governo chileno vai decidir se aplica ou não uma dose de reforço.

"Essa informação, somada a outros dados que o Ministério da Saúde está recolhendo, são ferramentas cruciais para tomarmos uma decisão sobre uma dose de reforço", disse o ministro da Ciência, Andrés Couve, responsável pelo Comitê Assessor de Vacinas e Imunizações (CAVEI).

Em 16 de abril, o Ministério da Saúde do Chile publicou um estudo realizado com 10,5 milhões de chilenos vacinados 14 dias depois da segunda dose da CoronaVac. A efetividade da vacina foi de 67% (média entre a variação de 65% a 69%) para prevenir a Covid-19 sintomática.

O Chile já aplicou 18 milhões de doses da CoronaVac, responsável por 70% da vacinação geral. Até agora, 60% da população chilena de 19 milhões de pessoas receberam as duas doses. O governo chileno traçou a meta de vacinar 80% da população, equivalentes a 15,2 milhões de pessoas, para atingir a imunidade coletiva.

Brasil e Uruguai

Além do Chile, na América Latina, o imunizante chinês é o segundo mais usado na campanha de vacinação do Brasil e o mais usado na campanha contra a Covid-19 no Uruguai.

Na América Latina, o Chile e o Uruguai ocupam o pódio das nações que mais velozmente combatem o coronavírus. A velocidade dessas campanhas de vacinação baseia-se no imunizante chinês.

Em recente entrevista com à RFI, o infectologista Miguel O'Ryan, do Instituto Biomédico da Universidade do Chile e membro do Comitê Assessor de Vacinas e Imunizações (CAVEI) indicou que a imunidade de rebanho só deve ser atingida com quase 100% de vacinados devido à menor efetividade da vacina chinesa CoronaVac.

"Muito provavelmente tenhamos que chegar a uma vacinação próxima de 100% da população para atingirmos os 80% previstos de cobertura de proteção", antecipou Miguel O'Ryan.

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