Castillo toma posse com um desafio: provar que não quer transformar o Peru em uma nova Venezuela

Pedro Castillo pouco antes da posse como presidente do Peru
Pedro Castillo pouco antes da posse como presidente do Peru AP - Guadalupe Pardo

O professor de esquerda Pedro Castillo assume nesta quarta-feira (27) a presidência do Peru com uma série de desafios pela frente. Além de enfrentar a pandemia, reativar a economia e acabar com as convulsões políticas que marcaram os últimos anos, ele ainda tem que provar para os mais céticos que não pretende adotar uma política radical que leve o país a seguir os passos da Venezuela ou de Cuba.  

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Três dias de cerimônias estão programados para a posse do novo presidente, que recebe a faixa bicolor no aniversário do bicentenário da independência do país. O rei da Espanha, Felipe VI, participa da cerimônia, que também conta com a presença de seis chefes de Estado, o secretário de Educação dos Estados Unidos, Miguel Cardona, e o ex-presidente boliviano Evo Morales. O Brasil é representado pelo vice-presidente, o general Hamilton Mourão.

Sindicalista, católico praticante e contrário ao aborto e às uniões entre pessoas do mesmo sexo, o novo presidente, de 51 anos, que costuma usar o chapéu branco típico dos camponeses de sua terra natal, Cajamarca (norte), foi eleito em um país que busca transformações. "Planejamos mudanças, não remendos ou reformas como outros candidatos de esquerda", prometeu Castillho durante a campanha à frente do Peru Livre, partido minoritário que se define como marxista-leninista e que superou por estreita margem Keiko Fujimori, filha do ex-presidente preso Alberto Fujimori (1990-2000).

A proposta eleitoral do Peru Livre se baseia em três pilares: saúde, educação e agricultura, setores prioritários para promover o desenvolvimento nacional, segundo Castillo. No entanto, o noviço na vida política assume o poder em um país instável, e que, para completar, ainda tenta controlar a pandemia de Covid-19.

O Peru acumula mais de dois milhões de infecções e quase 200.000 mortes, sendo a nação com a maior taxa de mortalidade do mundo por coronavírus, com 603 mortes por 100.000 habitantes. Além disso, uma longa quarentena causou a perda de dois milhões de empregos e mergulhou o país na recessão em 2020. O PIB caiu 11,12%.

"31 anos de corrupção"

“Ele chega ao poder em um contexto muito complexo de profunda crise política, econômica e sanitária, após anos de governo com uma direita marcada por muita corrupção e ineficácia na gestão pública”, resume Luis Benavente, diretor da consultoria Vox Populi, em Lima. “Esses governos tiveram resultados macroeconômicos muito bons, favoráveis para o país, mas que não fizeram uma boa gestão administrativa. Não prepararam um sistema sanitário ou de educação de qualidade. Foi uma administração muito deficiente e muito corrupta durante 31 anos”, denuncia. 

O novo presidente tem a ambição convocar uma Assembleia Constituinte para redigir uma nova Constituição em seis meses para substituir a atual, adotada em 1993, redigida sob a supervisão de Alberto Fujimori, e que favorece a economia de livre-mercado. Mas Castilho assume o cargo sem nenhum apoio dentro do Congresso, órgão que tem um papel vital no Peru, e que o considera muito à esquerda no tabuleiro político. 

“Será um início muito difícil, pois ele terá que unir e, ao mesmo tempo, tranquilizar e negociar com a oposição dos fujimoristas, ou melhor, com a direita peruana. Uma direita que aceita o resultado das urnas sem convicção”, explica Lissell Quiroz, professora de estudos latino-americanos da Universidade de Cergy, nos arredores de Paris. 

Medo da radicalização política

O receio de uma radicalização na política peruana aparece frequentemente nas análises dos especialistas ouvidos pela RFI. “Muitos o veem como uma alternativa, como uma esperança ou uma possibilidade de saída diante da corrupção. Mas a outra metade da população vê Castillo com preocupação, temendo uma proposta estatista, comunista”, pondera Benavente. “Essa outra metade não vê Castillo como uma esquerda moderna, como vemos em muitos países, e sim como uma esquerda radical.”

Já para Lissell Quiroz, a população espera por mudanças estruturais, mas preza pelas conquistas já garantidas. “Eles esperam que o país continue seguindo o modelo econômico mantido no Peru desde o final do século 20. Mas, principalmente, que não se direcione para um modelo chavista ou castrista. Esse é o grande medo”, finaliza.

O Peru Livre de Castilho é um dos poucos partidos peruanos de esquerda que defendem o regime do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Além disso, as primeiras propostas econômicas do novo chefe de Estado já preocuparam as multinacionais e investidores, por suas promessas de nacionalização e um papel mais ativo do Estado no mercado, o que lhe valeu comparações com o "socialismo bolivariano" da Venezuela.

"Não somos chavistas, não somos comunistas, ninguém veio desestabilizar este país. Somos trabalhadores, lutadores, empreendedores", declarou o professor.

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