"Vi pessoas morrendo carregadas pelo rio", conta haitiana deportada dos EUA

Guardas de fronteira dos EUA tentam impedir que migrantes haitianos entrem em um acampamento nas margens do Rio Grande, perto da Ponte Internacional Acuna del Rio em Del Rio, Texas, em 19 de setembro de 2021.
Guardas de fronteira dos EUA tentam impedir que migrantes haitianos entrem em um acampamento nas margens do Rio Grande, perto da Ponte Internacional Acuna del Rio em Del Rio, Texas, em 19 de setembro de 2021. AFP - PAUL RATJE

A imagem causou estupor na segunda-feira (19): dezenas de migrantes haitianos foram expulsos com violência por oficiais da imigração dos Estados Unidos, montados a cavalo. Uma cena digna de faroeste que mancha a reputação do democrata Joe Biden, e que o mundo está longe de esquecer. A RFI conversou com "Rosa", nome fictício de uma migrante haitiana de 33 anos. Ela descreve seu périplo de horrores por nove países, incluindo o Brasil, após fugir do terremoto no Haiti.

Publicidade

O ministro da Segurança Interna dos Estados Unidos, Alejandro Mayorkas, declarou nesta quarta-feira (22) que as fotos que mostram policiais a cavalo empurrando migrantes haitianos na fronteira dos EUA com o México "não refletem a identidade dos Estados Unidos". No entanto, o mal já estava feito e a imagem corre hoje as veículos de imprensa e as redes sociais de todo o planeta. 

As fotos causaram agitação até na Casa Branca, que as chamou de "horríveis". Mesmo assim, o governo Biden continua a aumentar os voos de deportação de migrantes para o Haiti. Na terça-feira (21), nada menos que quatro voos do Texas pousaram na capital Porto Príncipe. Centenas de migrantes são mandados diariamente de volta. Entre eles, uma jovem que sonhava em oferecer uma vida melhor para seus familiares no campo.

Descendo do ônibus que veio buscá-los assim que saíram do avião na capital haitiana, os deportados explodem de raiva e se irritam com os jornalistas que gostariam de filmá-los, segundo conta Amélie Baron, correspondente da RFI no Haiti. Os funcionários do Escritório Nacional de Migração tentam explicar o procedimento de registro através de megafones, mas a confusão reina entre os deportados.

Alguns refugiados passaram pelo Brasil

Entre eles estava uma mulher de 33 anos que, para manter o anonimato, prefere ser chamada de Rosa. Ela deixou o Haiti após o terremoto de 12 de janeiro de 2010 com um objetivo em mente: “queria terminar meus estudos porque eu conseguir terminar o primeiro ano primário. Depois do terremoto, tudo acabou, não havia futuro. Minha mãe me trouxe para Santo Domingo", conta. "Eu pensei que ia poder estudar, mas fui me confrontado com o racismo. Não pude fazer muita coisa. Estava no Brasil mas não tinha dinheiro para pagar a escola, e depois não tive mais tempo porque os empregos que você encontra quando é imigrante e mulher é de segunda a domingo, sem descanso", revela a haitiana.

Rosa trabalhava em uma lavanderia industrial no Brasil. Ela regularmente enviava dinheiro para familiares na capital haitiana. Mas a pandemia Covid-19 no país foi o início dos problemas para ela. “A vida era boa, eles respeitam os imigrantes e não são racistas, mas a economia começou a declinar. Eu queria oferecer uma casa para o meu pai, que está doente. Por isso peguei a estrada, para que ele pudesse ajudá-lo, ficar confortável porque ele me fez feliz quando eu era pequena", emociona-se.

Ela embarcou então nesta perigosa rota migratória pela América Central. "Do Brasil ao México, passei por nada menos do que nove países. Ouvi um monte de coisas terríveis que aconteceram com as pessoas que estavam no grupo com o qual viajei por um tempo. Deus me evitou esses horrores. Eu vi pessoas morrendo na frente dos meus olhos, carregadas por um rio. Só me aconteceu uma coisa: quase fui levada pela água e me afoguei, mas a mão de Deus segurava a minha”, recorda.

Depois de todos esses esforços, ela se encontra agora sentada ao lado da pista do aeroporto de Porto Príncipe. "Isso me dói, não por mim, mas por meu pai, porque os sonhos que eu tinha para ele fracassaram e ele depositava muita esperança em mim, assim como meus irmãos e irmãs mais novos", diz. "Em caso de necessidade, me chamavam. Tudo desmoronou, mas a vida ainda não acabou. Hoje eu não entendo a vontade de Deus, mas amanhã talvez eu entenda", consola-se.

Voltar agora ao Haiti, depois de mais de uma década morando no exterior é um pesadelo para ela. “O país ainda ia mal, mas não estava tão ruim. As pessoas podiam andar nas ruas. Mesmo que já houvesse gangues e violência, os serviços públicos funcionavam. Em 2010 as coisas não estavam nesse estado. Hoje não sobrou mais nada”, atesta. Perguntada se vai ficar no Haiti, ela ri. Sua resposta é contundente: "Mesmo brincando, eu não ficaria. Este é o meu país, eu me resigno, mas assim que surgir uma oportunidade, eu vou embora", diz, decidida.

Violação do direito internacional?

As cenas registradas na fronteira com o México na segunda-feira vêm tendo consequências. Entre as hipóteses levantadas contra o governo Biden, as Nações Unidas denunciam uma possível "violação do direito internacional" com as expulsões e deportações de haitianos, executadas massivamente pelos Estados Unidos.

“As expulsões em massa e sumárias que estão ocorrendo atualmente com a invocação do regulamento 42 [um texto legal de saúde ao qual as autoridades norte-americanas se referem para justificar as expulsões], sem tentar determinar as necessidades em termos de proteção; são contrárias ao padrão internacional e pode ser equiparado a uma rejeição", o que é condenado pelo direito internacional, sublinhou o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Filippo Grandi em um comunicado de imprensa.

O comissário disse que ficou "chocado" com as imagens de milhares de haitianos encontrando abrigo precário sob as pontes rodoviárias de Del Rio, no Texas. Na manhã desta quarta-feira, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e o ACNUR, chefiado por Grandi, juntaram-se às outras vozes para lembrar que "qualquer requerente de asilo tem o direito de ter o seu pedido examinado".

"Estamos profundamente preocupados com o fato de não ter havido um exame mais minucioso no caso dos haitianos", disse a porta-voz do Escritório da Alta Comissária para os Direitos Humanos, Marta Hurtado, em uma reunião da ONU em Genebra. E "talvez algumas dessas pessoas não tenham recebido a proteção de que precisavam", completou.

Por sua vez, Shabia Mantoo, porta-voz do ACNUR, sublinhou no mesmo comunicado à imprensa que o pedido de asilo era "um direito humano fundamental". “Pedimos que esses direitos sejam respeitados”, disse.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou no sábado (18) que aceleraria o ritmo de expulsões por avião de quase 15 mil migrantes, a maioria haitianos, reunidos por dias sob a ponte no Texas. As expulsões de haitianos haviam sido temporariamente suspensas após um terremoto que devastou o Haiti no mês passado.

Com informações da AFP e de Amélie Baron, correspondente da RFI no Haiti

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Acompanhe todas as notícias internacionais baixando o aplicativo da RFI