Racha da oposição contribuiu para vitória do chavismo na Venezuela, dizem analistas políticos

Juan Guaidó durante coletiva de imprensa em Caracas para comentar resultado das eleições.
Juan Guaidó durante coletiva de imprensa em Caracas para comentar resultado das eleições. REUTERS - LEONARDO FERNANDEZ VILORIA

Observadores europeus que estiveram na Venezuela acompanhando as últimas eleições regionais divulgam nesta terça-feira (22) um relatório preliminar sobre a votação ocorrida no domingo (21). O chavismo conquistou a prefeitura de Caracas e 20 dos 23 governos estaduais, aparentemente sem incidentes fraudulentos. Para analistas políticos, o partido governista se aproveitou da divisão entre seus opositores.

Publicidade

A oposição participou de uma votação na Venezuela pela primeira vez, em quatro anos. Porém, a falta de unidade dos oposicionistas acabou dando vantagem ao partido do presidente Nicolás Maduro, o PSUV, que conquistou a maioria dos cargos de governador e a simbólica prefeitura da capital.  

“Nos vinte estados com vitória de Nicolás Maduro, somente em quatro a margem de votos passa de 50%, ou seja, maioria absoluta”, observa Thomas Posado, cientista político, do Centro de Pesquisas Sociológicas e Políticas de Paris, ouvido pela RFI. “Nos outros, foi a divisão da oposição que lhes permitiu ganhar. Ou seja, em 16 dos 20 estados, a vitória foi com uma maioria relativa e é claramente essa desunião que acarretou a derrota”, completa.

Crise econômica

No poder desde 2013, Maduro tem de lidar com uma crise econômica sem precedentes, que fez com que o Produto Interno Bruto (PIB) per capita deste país petrolífero caísse ao do nível do Haiti. “Estamos numa situação em que o PIB teve uma queda de 78%, desde 2014. Com problemas de escassez de alimentos e medicamentos, de fornecimento de água e energia, ninguém pensou que mudar as cores do governo resolveria seus problemas cotidianos”, analisa Posado.

Nicolás Maduro comemorou o sucesso de seu partido, “mas não podemos esquecer que a abstenção foi muito importante (quase 60%)” destaca, ainda, o especialista em Venezuela. “Há essa desconfiança que se traduziu nas urnas, onde nem Nicolás Maduro e nem a oposição parecem trazer as respostas a esses problemas concretos”, diz.

“A divisão e a falta de reconhecimento de alguns novos dirigentes foram a causa das derrotas”, reforça o acadêmico Pedro Benítez, da Universidade Central da Venezuela. “A principal divisão é a abstenção”, observa. “O chavismo (que leva o nome de Hugo Chávez, figura da esquerda radical latino-americana e antecessor de Maduro) vence com 18% do eleitorado”, calcula.

O chavismo tirou a importância do voto, acredita Benítez. "A mensagem foi clara: seu voto é inútil. As pessoas perderam a fé na votação e a oposição, com sua estratégia errática, também contribuiu", conclui.

“Há um fracasso terrível da oposição ou das 'oposições'. Elas não conseguiram propor uma mensagem atraente para criar uma dinâmica de mobilização”, reforça Daniel Varnagy, doutor em ciência política da Universidade Simón Bolivar.

Eleições para legitimar o regime

Os enviados especiais da RFI, Stefanie Schüler e Bertrand Haeckler, foram abordados nas ruas de Caracas por uma mulher que afirmava ser contrária ao processo eleitoral. De acordo com ela, as eleições do último domingo serviram, mais uma vez, “apenas para legitimar o regime de Nicolás Maduro”.

Como funcionária do governo, ela testemunhou sob condição de anonimato. “Nós, venezuelanos, não podemos oferecer legitimidade a este governo. Este governo destruiu completamente o país. As pessoas estão sofrendo. As pessoas procuram comida no lixo”, relata. “Em direitos humanos, o regime sentiu que o cerco está se apertando em torno dele. Ele queria lavar as mãos. E então organizou eleições. Como venezuelanos, não podemos aceitar este esquema!”, acrescenta.

Guaidó pede união

Incapaz de motivar os eleitores, a "presidência interina" de Juan Guaidó, reconhecida por cerca de cinquenta países que desejam tirar Maduro do poder, perdeu fôlego desde 2019.

Uma das condições exigidas pela oposição era a observação internacional. O governo Maduro permitiu o acompanhamento de uma ampla missão da União Europeia e de painéis de especialistas da ONU e do Centro Carter, após anos de resistência a convites para observadores de organizações internacionais. Contudo, qualquer objetivo eleitoral passa pela "evidente necessidade de unificação" da oposição, destacou Guaidó.

Em discurso nesta segunda-feira (22), o autoproclamado presidente da Venezuela pediu união. “É um momento que certamente deve nos levar a uma unidade sincera, que volta a legitimar as lideranças da Venezuela, que reconstrua uma plataforma unitária que dê respostas aos interesses dos venezuelanos”, disse Guaidó.

Enquanto isso, os Estados Unidos acusaram, na segunda-feira, o presidente venezuelano Nicolás Maduro de ter "distorcido amplamente" as eleições regionais e locais de domingo. "O regime de Maduro, mais uma vez, privou os venezuelanos de seu direito de participarem de um processo eleitoral livre e justo", disse o chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Antony Blinken, em um comunicado.

(Com informações da AFP e RFI)

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Acompanhe todas as notícias internacionais baixando o aplicativo da RFI