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EUA/Eleições

Debate sobre porte de armas ficou fora da campanha presidencial

Mulheres são cada vez mais numerosas no clube de tiros nos Estados Unidos.
Mulheres são cada vez mais numerosas no clube de tiros nos Estados Unidos. Silvano Mendes
Texto por: Silvano Mendes
6 min

O porte de arma pelos cidadãos comuns ainda é um tema tabu nos Estados Unidos. Apesar dos tiroteios que chocaram o país esse ano em Illinois e no Wisconsin, o assunto esteve praticamente ausente durante a campanha presidencial norte-americana. As associações de atiradores do país chegaram a realizar filmes publicitários pedindo que os candidatos abordassem a questão.  

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Enviado especial a Richmond, na Virgínia

No mês de outubro os telespectadores de Wisconsin, Flórida, Ohio e Virgínia foram surpreendidos por um spot publicitário inusitado. Durante o filme de 30 segundos, a NRA (National Rifle Association) pedia que os candidatos às eleições presidenciais abordassem a questão da autodefesa durante suas campanhas. A iniciativa dessa associação nacional de atiradores, que representa o principal lobby dos caçadores do país, foi lançada logo após a morte de três mulheres por um atirador em um salão de beleza na pequena cidade de Milwaukee, em Wisconsin, um episódio que ganhou ampla cobertura na imprensa local.

A campanha da NRA é um exemplo das contradições sobre o porte de armas nos Estados Unidos. Mesmo se o drama de Milwaukee parece ter sido um crime passional (a mulher do atirador, que se suicidou, trabalhava no salão), a associação insiste no direito de autodefesa dos cidadãos. E mesmo se o slogam do vídeo, “Vencer Obama e defender a liberdade”, é uma mensagem direta ao atual chefe da Casa Branca, a falta de reflexão sobre o tema é presente tanto no programa democrata quanto republicano.

O porte de armas é um direito constiticional nos Estados Unidos e é defendido pela maioria da população (49% contra 45%, segundo uma pesquisa desse ano). Temendo perder eleitores, Mitt Romney se pronunciou sobre o assunto apenas durante as primárias, se posicionando do lado dos atiradores. Já Barack Obama tentou, timidamente, reforçar os critérios de verificação dos antecedentes criminais dos compradores de armas – procedimento inexistente em algumas regiões do país. O spot de NRA em outubro passado mostra que a iniciativa não agradou.

Virgínia, um estado armado

Na Virgínia, estado que detém o maior número de metralhadoras no país, essa questão não parece merecer espaço na disputa pela Casa Branca. Conversando com as pessoas nas ruas, é raro encontrar alguém contrário ao porte de armas, que faz parte do quotidiano da população. A tal ponto que a capital Richmond é orgulhosa de sediar “o maior clube de tiro indoor dos Estados Unidos”. A Colonial Shooting Academy (CSA) é um imenso prédio com cara de hipermercado em uma zona residencial da cidade. Ele abriga três salas de tiros capazes de acolher mais de 50 atiradores simultaneamente, um simulador em vídeo e um andar inteiro com tudo o que um fã de armamento pode sonhar: revólveres, pistolas, metralhadoras, espingardas, mas também munição e roupas especiais para os que adotam a prática como um esporte.

Edward Coleman, o gerente do local, explica que o público é variado, com jovens, adultos, homens e mulheres. “Também temos muitos estrangeiros que vem para treinar. Ingleses, alemães, ou ainda os japoneses, que não podem ter armas em seu país e vem aqui para matar a vontade. Eles passam horas atirando. O CSA funciona como um clube, mas não é preciso ser membro para atirar. Basta ter um documento válido, com foto, e assistir ao nosso vídeo de formação”. A fita em questão dura cerca de 8 minutos e dá aos usuários noções básicas de segurança.

A diversidade de público pode ser sentida logo na primeira sala, onde duas jovens podiam ser vistas nesse quarta-feira atirando em meio a uma dezena de rapazes de todas as faixas etárias. Uma das moças, acompanhada pelo pai, tinha apenas 17 anos, idade mínima para frequentar o local. “Algumas mulheres vem aqui na hora do almoço, atiram durante meia hora e depois voltam ao trabalho”, relata Coleman. O local tem até um disputado Ladies Nitgh, evento mensal “só para elas”.

Armas como presente de Natal

O gerente do CSA insiste na presença do público feminimo, como a dona de casa Trudi, que passeava pelos corredores da área comercial na tarde dessa quarta-feira. “Vim aqui escolher o presente de natal do meu marido. O fato de que o local seja organizado como um shopping facilita a escolha”, analisa. No balcão, duas jovens ouvem atentivamente os conselhos do vendedor sobre uma pequena pistola autom¬ática. “Temos alguns estudantes entre nossos clientes. Eles querem armas leves, que possam ser carregadas discretamente. Sei que alguns levam as pistolas para o colégio, o que é proibido, mas isso é uma decisão pessoal”, teoriza o vendedor.

Questionado sobre a ausência da questão do porte de armas na campanha presidencial, Coleman defende a necessidade de saber usar um revolver corretamente para poder se defender e não parece preocupado com o futuro de seu negócio. “Não há muito debate sobre o assunto porque os dois candidatos, pelo menos publicamente, defendem a segunda emenda, que garante nosso direito de ter armas, e não farão nada para mudar o texto. A gente ouve dizer que os democratas querem tirar esse direito, mas tudo isso não passa de rumores”. A emenda citada por Coleman faz parte da Constituição e data de 1791. Um texto que, se depender do discurso dos candidatos à presidência, deve continuar sem mudanças por mais quatro anos.

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