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Argentina/panelaço

Insatisfeitos, argentinos vão às ruas para panelaços em todo o país

Milhares de argentinos fazem "panelaço" no centro de Buenos Aires.
Milhares de argentinos fazem "panelaço" no centro de Buenos Aires. REUTERS/Marcos Brindicci
4 min

Um novo "panelaço" contra o governo de Cristina Kirchner mobiliza todo a Argentina. Foi o maior protesto desde que os Kirchner chegaram ao poder em 2003.O som metálico ecoou das janelas, pelas ruas, pelas praças e invadiu os principais cartões postais de todo o país. Nas panelas argentinas, há tempos cozinha-se um ingrediente invisível: a insatisfação popular contra o governo de Cristina Kirchner.

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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Uma insatisfação a ponto de ebulição que levou cerca de 2 milhões de pessoas às ruas. Só aqui na capital argentina, cerca de 700 mil pessoas, a maioria da classe média. A maré humana inundou a famosa Avenida 9 de Julho e a histórica Praça de Maio. Chegou até a residência presidencial de Olivos, onde Cristina Kirchner descansava.

 

O chamado "Panelaço 8N" (8 de novembro) foi uma manifestação espontânea, convocada e multiplicada pelas redes sociais. Sem bandeiras partidárias ou lideranças políticas. Apenas bandeiras argentinas e o hino nacional como "canção de protesto". É que boa parte das queixas passa por questões como respeito pelas Instituições, pela República, pela divisão de poderes ou pela democracia.

 

"Estamos aqui porque defendemos a República. Não há liberdade nesta ditadura democrática. Cristina Kirchner foi eleita democraticamente, mas faz o que bem entende", explica a advogada Inés, de 51 anos. A indignação passa ainda por questões concretas que afetam o dia-a-dia do cidadão. "O governo ataca a propriedade privada. Não nos permite poupar. A moeda se desvaloriza. Não podemos comprar dólares. A inflação dispara", enumera.

 

Ao seu lado, o marido Ignacio, de 53 anos, completa: "Há uma corrupção com impunidade absoluta. A presidente tinha 3 milhões de pesos (1,5 milhão de reais) quando chegou ao poder: agora, 72 milhões. Como se explica isso?", pergunta retoricamente.

 

O leque de demandas é amplo: contra o aumento da violência, contra a inflação galopante e contra a corrupção enquanto o governo tem traçado uma estratégia para modificar a Constituição e habilitar um terceiro mandato para a presidente.

 

No meio da multidão, o engenheiro industrial argentino Carlos Maiztegui, de 54 anos, é contra a uma eventual re-reeleição. "A re-reeleição seria mais um fato da corrupção: permanecer para simplesmente manter o poder. Temos uma estrutura claramente mafiosa no governo. O único interesse é o bolso e o poder dos corruptos. Precisamos de respeito pela liberdade, respeito pela democracia e pela República".

 

A falta de liberdade de imprensa, a proibição de comprar moeda estrangeira, o uso da Receita Federal para perseguir e calar vozes críticas ao governo foram outras demandas. O maior protesto contra o governo acontece num contexto de queda contínua da popularidade de Cristina Kirchner.

 

"Queremos uma mudança. Chega de insegurança e de corrupção. Chega de desemprego, de restrições à compra de dólares. Não podemos ser livres. Não podemos viajar. Não podemos sair do país. Este país está cada vez mais fechado. Se continuarmos a permitir, tornar-se-á Cuba", acredita Silvia de 65 anos. "Não podemos permitir. Se ficarmos em casa, será pior. O governo tem de perceber que somos muitos contra eles", diz com a esperança de o "Panelaço 8N" representar um freio na voracidade do governo.

 

 

O prestigioso analista político Eduardo Fidanza, diretor da consultoria Poliarquia, caminha entre os manifestantes e reflete para a RFI: "Aqui falta que toda essa gente encontre representantes nos líderes políticos da oposição. Essa representação vai depender da habilidade dos políticos da oposição". Também constata: "Este tipo de mobilização anuncia a parte final do governo Kirchner (Cristina acaba de completar o primeiro dos quatro anos do seu segundo mandato) porque demonstra a dificuldade que o governo terá para um projeto de reforma da Constituição para uma re-reeleição". E sobre as pesquisas de opinião da sua consultoria especializada em política conclui: "Esta é uma expressão nas ruas do que surge nas sondagens: o governo está muito longe de conseguir impor uma reforma constitucional".

 

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