Argentina/Política

Depois de 10 anos de "kirchnerismo", a Argentina está dividida

A presidente argentina, Cristina Kirchner.
A presidente argentina, Cristina Kirchner. REUTERS/Marcos Brindicci

O 25 de Maio é uma data pátria: a Revolução de Maio de 1810 que abriu o caminho à Independência da Argentina. Mas os Kirchner aproveitam a data para celebrar, na verdade, uma década de Kirchnerismo, desde que o ex-presidente falecido Néstor Kirchner chegou à Presidência em 2003 e a sua esposa deu continuidade em 2007 e depois foi reeleita em 2011. Para metade desta Argentina dividida e polarizada, foi uma "década perdida". Para combater essa ideia, o governo colocou como slogan da celebração deste 25 de Maio "A década ganha".

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Márcio Resende correspondente em Buenos Aires

Esse tipo de leitura particular revela bem o que é a Argentina dos Kirchner. Importa mais a ficção do que a realidade. Assim, a inflação de 30% ao ano é manipulada e os meios de comunicação precisam ser controlados pelo governo para justamente não controlarem o Estado.

Os três mandatos dos Kirchner podem ser dividido em três fases: a emergencial de construção do poder depois do colapso de 2001 e 2002; a de acumulação e de consolidação do poder até 2007; e a atual fase de perda do limite do poder.

O primeiro período foi marcado pela reconstrução do poder político e pela recuperação econômica e social, após o colapso de 2001. A expansão monetária dos Estados Unidos combinada com a irrupção da China e da Índia como compradores de commodities propiciaram um boom econômico no país. A Argentina vinha ainda de uma capacidade ociosa na sua indústria após a grave recessão 1998-2002. E os custos políticos da declaração de moratória em 2001 já tinham sido pagos. Uma moratória - ainda sem solução - que afastaria até hoje a Argentina do acesso aos mercados internacionais de capital.

Néstor Kirchner construía poder político enquanto o mundo entrava num período de bonança não visto desde o final da Segunda Guerra. No campo político, os processos contra os ex-repressores da última ditadura ou a renovação do Supremo Tribunal atraíam a classe média com ideologia de progressista.

Uma fenomenal rede assistencialista de subsídios era criada inicialmente para reconstruir o tecido social, mas mantida posteriormente para manter vastos setores disciplinados. Os subsídios - e não a produção - viraram o grande negócio. O superávit fiscal virou déficit.

Cristina Kirchner assumiu em 2007 sob escândalos de corrupção envolvendo supostos negócios com a Venezuela e financiamento ilegal de campanha. Em seguida, um conflito agropecuário duraria quatro meses e marcaria o divórcio com a classe média. O vento a favor mudaria ainda no final de 2008 com a crise financeira internacional. A imagem negativa do governo aumentava, mas a oposição fragmentada não soube capitalizar o que parecia o fim do kirchnerismo.

Um novo impulso veio a partir de uma série de estatizações sob a égide do nacionalismo, do boom do consumo e da morte de Néstor Kirchner em 2010, que provocou um "efeito viúva" favorável a Cristina e até hoje explorado por ela.

Por trás das estatizações, os verdadeiros motivos encobertos. A reestatização dos fundos de pensão revelaram a falta de acesso ao capital. Era preciso usar o dinheiro das aposentadorias para incentivar o consumo a taxas subsidiadas. A estatização da petrolífera YPF-Repsol revelava o fracasso da política energética e a falta de dólares do governo para pagar a conta energética com importações.

A falta de dólares provocaria ainda restrições às importações e a proibição de comprar moeda estrageira. Todas decisões tomadas sob o discurso da defesa nacional.

Os Kirchner construíram um hiperpresidencialismo em detrimento do Legislativo e do Judiciário. Depois de ser o presidente eleito com menos votos e poder em 2003, passaram ao papel dos mais autoritários de todos os presidentes civis da Argentina. Era necessário controlar o Congresso e os juízes, além de eliminar qualquer mecanismo de transparência nos gastos do Estado.

Na atual fase, os problemas não resolvidos anteriormente vêm à tona. A economia patina, o consumo cai e o investimento foge enquanto o governo tenta administrar o final da festa. Se falta dólares, sobram escândalos de corrupção e um estado de medo generalizado no qual vivem empresários, jornalistas ou qualquer voz dissidente. Todos perseguidos por leis escritas ou não escritas como perseguições da Receita Federal ou a intervenção constante do governo nas empresas e na economia.

Preços e tarifas congeladas tentam manter uma inflação galopante sob controle até outubro, quando o Parlamento se renova parcialmente.

No seu discurso de posse em maio de 2003, o então presidente Néstor Kirchner destacou a necessidade de “fortalecimento das instituições com apego à Constituição”. Cristina Kirchner fez campanha em 2007 elevando a necessidade de "qualidade institucional".

O que se viu foi o contrário: nenhuma instituição resistiu ou ficou independente no país. A jogada mais audaz ainda pode estar por vir. Se ganhar as eleições legislativas de outubro, Cristina Kirchner pode tentar reformar a Constituição e se habilitar para um terceiro mandato consecutivo. Se perder, terá de administrar dois anos de uma presidente sem muito poder e sem substituto à vista.

O atual rumo parece ser o da espiral de radicalização. Entre o tudo ou nada, Cristina Kirchner aparece disposta a fazer valer o anúncio no seu discurso de reeleita: "Vamos por tudo".

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