Bolívia/Fechamento do espaço aéreo

França se desculpa, Brasil condena tratamento europeu a Evo Morales

Presidente Evo Morales é recebido com festa no aeroporto El Alto, nos arredores de La Paz
Presidente Evo Morales é recebido com festa no aeroporto El Alto, nos arredores de La Paz REUTERS/David Mercado

O avião presidencial da Bolívia aterrissou no aeroporto perto de La Paz às 11 horas e 39 minutos pelo horário local, depois de uma viagem tumultuada. Evo Morales e sua comitiva foram obrigados a fazer uma escala forçada na Áustria, depois que França, Portugal e Itália fecharam seu espaço aéreo sob a suspeita infundada de que o avião transportava o ex-agente americano Edward Snowden, alvo da justiça e do governo dos Estados Unidos. Um erro histórico, disse Morales.

Publicidade

Em um breve discurso, o presidente boliviano fez duras críticas ao tratamento que recebeu dos europeus ao desembarcar em seu país: "É uma provocação clara ao nosso continente e não apenas a este presidente. Os Estados Unidos usam seus aliados para nos amedrontar e intimidar. Apenas quero dizer que nunca vão nos intimidar nem nos assustar porque somos um povo que tem dignidade e soberania", afirmou.

Morales disse ainda que aguns países da Europa devem se liberar do imperialismo americano. O chanceler francês, Laurent Fabius, telefonou ao ministro das Relações Exteriores para dizer que o governo francês não teve a intenção de recusar a passagem do avião do presidente boliviano e lamentou o que chamou de "transtorno" a Evo Morales.

Em situação muito desconfortável, o presidente François Hollande tentou justificar a decisão de fechar o espaço aéreo: "Havia informações contraditórias sobre as identidades dos passageiros a bordo de um ou de dois aviões, já que havia dúvidas também do número de aviões que queriam passar pela França. Assim que soube que se tratava do avião do presidente boliviano, eu dei imediatamente autorização de voo", declarou.

Na Bolívia, o parlamento poderá pedir a expulsão dos embaixadores de França, Itália e Portugal. Nesta quinta-feira, ministros e presidentes dos países membros da Unasul se reúnem para discutir uma posição conjunta de apoio a Evo Morales. Em nota, a presidenta brasileira, Dilma Rousseff, expressou indiganção e repúdio ao constrangimento imposto a Evo Morales por alguns países europeus. Leia a seguir a íntegra do comunicado da presidência:

O governo brasileiro expressa sua indignação e repúdio ao constrangimento imposto ao presidente Evo Morales por alguns países europeus, que impediram o sobrevoo do avião presidencial boliviano por seu espaço aéreo, depois de haver autorizado seu trânsito.

O noticiado pretexto dessa atitude inaceitável - a suposta presença de Edward Snowden no avião do Presidente -, além de fantasiosa, é grave desrespeito ao Direito e às práticas internacionais e às normas civilizadas de convivência entre as nações. Acarretou, o que é mais grave, risco de vida para o dirigente boliviano e seus colaboradores.

Causa surpresa e espanto que a postura de certos governos europeus tenha sido adotada ao mesmo momento em que alguns desses mesmos governos denunciavam a espionagem de seus funcionários por parte dos Estados Unidos, chegando a afirmar que essas ações comprometiam um futuro acordo comercial entre este país e a União Europeia.

O constrangimento ao presidente Morales atinge não só à Bolívia, mas a toda América Latina. Compromete o diálogo entre os dois continentes e possíveis negociações entre eles. Exige pronta explicação e correspondentes escusas por parte dos países envolvidos nesta provocação.

O governo brasileiro expressa sua mais ampla solidariedade ao presidente Evo Morales e encaminhará iniciativas em todas instâncias multilaterais, especialmente em nosso continente, para que situações como essa nunca mais se repitam.

Dilma Rousseff
Presidenta da República Federativa do Brasil

 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.