Argentina/ crime

O giro de 180° da presidente Cristina Kirchner sobre a morte do promotor que a acusava

Comunidade judaica pede investigação imparcial da morte de promotor Alberto Nisman.
Comunidade judaica pede investigação imparcial da morte de promotor Alberto Nisman. REUTERS/Enrique Marcarian

Do suicídio ao assassinato em 72 horas. Como se fosse a leitora de um romance policial que arrisca desvendar o final da história, a presidente argentina, Cristina Kirchner, formulou uma nova teoria para a morte de Alberto Nisman, o promotor federal que a acusou na Justiça de acobertar a participação do Irã no atentando que, em 1994, deixou 85 mortos e mais de 300 feridos em Buenos Aires.

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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

A presidente Cristina Kirchner abandonou a sua teoria de um suicídio e abraçou a de um homicídio. Na tese inicial, o promotor Alberto Nisman teria resolvido pôr fim à própria vida quando percebeu que a sua denúncia não tinha sustento jurídico, já que tinha descoberto que as informações usadas para a denúncia contra a presidente eram incorretas e reunidas a partir de falsos espiões.

Na teoria atual, mais elaborada, em sintonia com as investigações judiciais e com a percepção social das ruas, o promotor foi assassinado por espiões. Kirchner acusa implicitamente o ex-agente da Secretaria de Inteligência, Antonio Stiusso, que, antes de ser removido do cargo em dezembro, era o principal informante do promotor Nisman. A presidente pede para investigarem os dez agentes da polícia que protegiam Alberto Nisman, como se os agentes não dependessem da Polícia Federal, vinculada ao Ministério de Segurança, que responde a Cristina Kirchner.

Para a presidente, Stiusso deu informação falsa ao promotor. Uma vez que a denúncia contra a chefe de Estado já estava feita, era necessária a morte de Nisman para que depois as suspeitas recaíssem sobre o governo. Kirchner diz "não ter provas, mas também não tem dúvidas".

Para analistas políticos, a presidente busca que os fatos se adaptem aos seus interesses: sair ilesa da trama policial e ainda como vítima de uma falsa denúncia elaborada por uma conspiração de espiões, de opositores e da imprensa.

A ex-esposa do promotor Alberto Nisman, a juíza Sandra Arroyo Salgado, não confia nas investigações e vai pedir uma nova autópsia. Salgado conhece agentes de inteligência que trabalhavam com o ex-marido, além de detalhes da denúncia que colocam a própria presidente como a cabeça de um plano criminoso para encobrir os acusados iranianos do pior atentado terrorista da América Latina.

"A decisão deliberada de encobrir os indiciados de origem iraniana acusados do atentado terrorista de 18 de julho de 1994, como surge das evidências encontradas, foi tomada pela cabeça do Poder Executivo Nacional, Dra. Cristina Elisabet Fernández de Kirchner, e instrumentada, principalmente, pelo ministro das Relações Exteriores, Sr. Héctor Marcos Timerman", escreveu Nisman.

Pressão popular

O giro de 180 graus na teoria oficial aconteceu depois de uma série de protestos populares e de incongruências nas investigações que tornaram insustentável o relato inicial do suicídio. A morte do promotor federal provocou comoção política - à medida que avançam as horas, a morte, classificada pela Justiça como "duvidosa", gera mais dúvidas e suspeitas.

Perplexos e desamparados, milhares de argentinos foram espontaneamente às ruas na segunda-feira. Nas principais esquinas e praças do país, perante a Casa Rosada, sede do governo, e a residência presidencial de Olivos, onde Cristina Kirchner descansava, milhares de panelas e faixas "Eu sou Nisman" indicavam que a convicção generalizada é de assassinato.

Uma sondagem da consultoria Ipsos antes do giro presidencial indica que a denúncia de Nisman contra o governo é crível para 82% dos entrevistados e que, para 70% dos consultados, a causa mortis foi assassinato. Apenas 12% acreditam em suicídio. Também a maioria, 62%, confia que o caso termina sem condenação assim como os 20 anos de impunidade que giram em torno do atentado terrorista com carro-bomba contra a Associação Mutual Israelita Argentina que, deixou 85 mortos e mais de 300 feridos. Dois anos antes, uma bomba deixara 29 mortos e mais de 100 feridos com a explosão da Embaixada de Israel, também em Buenos Aires.

 

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