Diplomacia

Cuba e Estados Unidos reabrem embaixadas e iniciam nova fase na reaproximação

Funcionários preparam embaixada cubana em Washington.
Funcionários preparam embaixada cubana em Washington. AFP/Mandel Ngan

A partir desta segunda-feira (20), EUA e Cuba reabrirão suas embaixadas, respectivamente, em Washington e Havana, encerrando oficialmente o último capítulo da Guerra Fria no continente americano. O encontro na capital americana do secretário de Estado, John Kerry, com o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodriguez, marca o restabelecimento de relações formais entre os dois países.

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Eduardo Graça, correspondente da RFI Brasil em Nova York.

O encontro de hoje é recheado de expectativas e, na pauta, estão temas como parcerias entre os dois países na área de saúde pública e o já anunciado interesse americano de explorar o mercado de telecomunicações da ilha. Mas as divergências também são muitas.

O último encontro oficial entre os dois responsáveis pela política externa de EUA e Cuba havia acontecido na longínqua data de 22 de Setembro de 1958. Esta é, também, a primeira vez, nos últimos 54 anos, que a bandeira cubana é erguida em órgão público em Washington. O mesmo acontecerá com a bandeira americana em Havana em agosto, quando Kerry fará uma visita oficial ao país caribenho.

O que se vê hoje em Washington é o resultado do esforço tanto da administração Obama quanto de Cuba, interessados na recuperação da economia da ilha e na diminuição das rusgas entre EUA e a América Latina. Mas o embargo econômico dos EUA a Cuba segue em vigor, já que só pode ser derrubado pelo Congresso, controlado pela oposição, crítica à política de aproximação iniciada pelos democratas.

Os republicanos já anunciaram, inclusive, a disposição de bloquearem qualquer indicação do governo Obama para o posto de embaixador dos EUA em Havana. As eleições gerais no ano que vem devem ser cruciais para se saber a real dimensão deste que é quiçá o movimento mais significativo de toda a Era Obama em relação à América Latina. Se o próximo presidente for republicano, é certo o fim da aproximação entre os dois países. Por outro lado, se os democratas retomarem o controle do Congresso, as possibilidades do fim do embargo aumentam significativamente.

Reparações

Washington já avisou que suas prioridades em relação a Cuba são três: a melhoria sensível do respeito aos direitos humanos na ilha, incluindo mudanças políticas significativas como o fim do sistema de partido único; a repatriação de fugitivos da Justiça americana refugiados no país caribenho e a compensação financeira aos que teriam sido lesados pela Revolução. Desde 1959, já são 9 mil pedidos de reparação apresentados à Justiça americana, com processos iniciados inclusive por nomes conhecidos, como a Coca-Cola e o grupo Colgate-Palmolive. O Departamento de Justiça acredita que Cuba tem de pagar pelo menos US$ 9 bilhões em reparações.

Para Havana, as negociações são cruciais para atrair mais investimento estrangeiro, fundamental para a recuperação econômica do país. Para o governo Obama, as reparações seriam um trunfo importante na difícil negociação com o Congresso, contrário à derrubada do embargo econômico a Cuba, consolidado em 1996. Mas é aí que está o x da questão: Cuba alega que o embargo, sozinho, já custou a Havana US$ 160 bilhões. Outros US$ 270 milhões de bens de cidadãos cubanos teriam sido congelados nos EUA desde a Revolução, em uma estimativa da própria Secretaria do Tesouro americana.

Ou seja, para além de questões por si só já delicadas, como os direitos humanos, basta lembrar que Cuba é uma das mais severas críticas ao funcionamento da base militar de Guantánamo, um enclave americano na ilha caribenha. Fechar a conta das reparações econômicas depois de mais de meio-século de enfrentamento não vai ser tarefa nada fácil.

 

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