Eleições/Argentina

Argentinos levam relação de amor e ódio com Cristina Kirchner às urnas neste domingo

O candidato Daniel Scioli e sua tutora, a presidente argentina Cristina Kirchner, durante comício no dia 20 de outubro.
O candidato Daniel Scioli e sua tutora, a presidente argentina Cristina Kirchner, durante comício no dia 20 de outubro. REUTERS/Marcos Brindicci

A Argentina vai dividida às urnas neste domingo (25) votar para presidente, o que torna imprevisível o resultado das eleições. A mais acirrada disputa da história do país pode ter um inédito segundo turno no dia 22 de novembro ou terminar com a vitória do candidato apoiado pela presidente Cristina Kirchner, Daniel Scioli.

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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Pela primeira vez nos últimos 12 anos, o sobrenome Kirchner não vai aparecer entre as opções para presidente da Argentina. Mas isso não significa que o elemento determinante não seja a relação de amor e ódio com a atual presidente. Essa divisão torna o resultado das urnas imprevisível.

Reportagem Eleições na Argentina

Haverá segundo turno? Ou o candidato de Cristina Kirchner, o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, ganha neste domingo? Se Scioli ganhar, será o fim de ciclo para o chamado "kirchnerismo"? Scioli terá autonomia para governar ou terá sempre a sombra de Cristina? Ninguém sabe. Essa é a disputa eleitoral mais acirrada da história argentina.

O candidato da situação, Daniel Scioli, representa a continuidade total com uma mudança de comportamento: sai a agressividade e o estilo combativo de Cristina Kirchner para uma forma mais serena e conciliadora.

Do outro lado, a mudança: Mauricio Macri, governador do distrito federal de Buenos Aires, e o deputado Sergio Massa representam o fim do “kirchnerismo”.

Eleitores divididos

No município de Esteban Echeverría, periferia de Buenos Aires, reduto eleitoral de Scioli, região de classe baixa e média, Juan Manuel Dias da Silva, de 42 anos, não tem dúvida. "Vou votar em Daniel Scioli. É o candidato do partido da presidente Cristina Kirchner. Voto pela continuidade do projeto", antecipa.

O eleitor cita as vantagem desse "projeto de país" iniciado em 2003. "Para mim, o mais importante é a inclusão social feita por este governo e que deve continuar. Tivemos uma grande ascensão social, mas também melhoraram as classes média e alta. Tenho 42 anos e nunca vi no meu país um período de 12 anos com este crescimento", destaca.

Do outro lado dessa postura, no bairro de Villa Devoto, área de classe média e alta de Buenos Aires, reduto de Mauricio Macri, Dulio Moreno, de 32 anos, vai votar contra o "kirchnerismo" que, para ele, é uma ditadura disfarçada. "Acredito realmente que no ‘kirchnerismo’ há muitos sinais de uma pseudo-ditadura. Não é uma ditadura institucional, mas há muitos sinais de autoritarismo", critica.

Moreno só vota em Macri porque o candidato é quem tem mais chances de derrotar Scioli. "Não acredito em Mauricio Macri, mas vou votar nele só para que o kirchnerismo não continue no poder", diz.

Scioli tem maioria das intenções de voto

Segundo as sondagens mais recentes, Daniel Scioli tem entre 37% e 42% das intenções de voto. O principal opositor, Mauricio Macri, varia entre 26% e 29%. Sergio Massa vai de 20% a 22%.

Essa proximidade de Scioli dos 40% poderia definir as eleições porque, para ser eleito presidente no primeiro turno, bastam 45% dos votos ou 40% desde que haja uma diferença de, pelo menos, 10 pontos com o segundo colocado: exatamente o que indicam as pesquisas. Mas ninguém se arrisca a adivinhar o comportamento de 15% de indecisos e de outros 15% que admitem poder mudar o voto em cima da hora.

Durante a campanha, Daniel Scioli não se arriscou a perder a base eleitoral de 40% dos votos, mas não perfurou esse teto com os necessários votos dos eleitores independentes dos quais precisa. Para fugir do estigma de "marionete de Cristina Kirchner", Daniel Scioli diz que "sabe o que fazer e como fazer", mas não explica. Anuncia enigmaticamente que "vai avançar ao próximo capítulo deste projeto, o desenvolvimento". "Estou convicto de que a Argentina, neste domingo, vai decidir avançar ao próximo grande capítulo deste grande 'projeto' que é o desenvolvimento nacional", indica.

Oposição propõe mudança

O discurso de Mauricio Macri, voltado a princípios republicanos e ao respeito pelas instituições, passou a defender também os programas sociais, as polêmicas estatizações de Cristina Kirchner, o combate ao tráfico de drogas e até mesmo adotou a bandeira da "pobreza zero". Tudo para conseguir os votos da classe baixa dos que precisa.

Macri promete unir uma sociedade dividida pelo amor e pelo ódio, entre prós e contra Cristina Kirchner. E se anuncia como a mudança: "Chega de enfrentamento! Chega de divisões! Eu me comprometo a unir os argentinos. Todos os argentinos juntos. Este é o momento. A mudança é agora, é hoje e é aqui", vocifera.

Quem também se anuncia como a mudança é Sergio Massa. Aponta o principal problema indicado pelos argentinos, a violência, como forma de conquistar o voto da classe baixa. Promete o uso do Exército nas favelas e nas fronteiras para combater o tráfico de drogas. Prisão perpétua para envolvidos com o tráfico e ainda a prisão os atuais membros do governo suspeitos de corrupção.

"Quem tiver que ser preso, será preso. Chame-se como se chame e tenha ocupado o cargo que tiver ocupado. Acabaram-se os privilégios na Argentina", adverte.

“Kirchnerismo luta pela sobrevivência”

Para o analista político Ricardo Rouvier, o que está em jogo é a luta do “kirchnerismo” pela sobrevivência. "É um período forte na história contemporânea argentina por seus amores e pelos seus ódios. Vamos chegar a uma situação inédita: o futuro está em disputa e o ‘kirchnerismo’ tenta não morrer", avalia.

Para não perderem votos durante a campanha, os candidatos evitaram a palavra "ajuste", mas a primeira fase do que vai acontecer, ganhe quem ganhar, a partir de 10 de dezembro, quando Cristina Kirchner deixar o poder, é justamente um forte ajuste numa economia asfixiada pela inflação, pela falta de dólares e por barreiras comerciais e cambiais. O próximo presidente tem a desafiante missão de normalizar e reunificar o país.

As eleições também renovam um terço do Senado e metade da Câmara de Deputados. Das 24 províncias, 11 elegem governador. O mapa eleitoral no Parlamento também deve refletir a paridade das urnas.

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