Política/Transição

Les Echos vê transição delicada para Macri na Argentina

O presidente da Argentina, Mauricio Macri.
O presidente da Argentina, Mauricio Macri. REUTERS/Enrique Marcarian

Em sua edição desta quinta-feira (10), o jornal especializado em economia Les Echos faz duras críticas aos últimos atos de Cristina Kirchner no governo da Argentina. Poucas horas antes da posse do presidente eleito, Mauricio Macri, o diário afirma que além de deixar um país à beira da recessão, Kirchner "criou novos problemas" para seu sucessor.

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"Por decreto, ela estendeu a todas as províncias do país uma decisão do Supremo Tribunal que obrigou o governo a devolver recursos a três províncias", escreve Les Echos. Essa decisão agravaria o rombo no Tesouro argentino e por isso acabou sendo anulada pela justiça, explica o jornal. De toda forma, "trazer dinheiro para o caixa do Estado será um dos maiores problemas do novo presidente", avalia o diário francês. O texto critica as nomeações feitas por Kirchner de última hora, mostrando que a presidente buscou acomodar seus aliados em embaixadas e no alto escalão das instituições públicas.

De acordo com Les Echos, os cofres do Banco Central argentino estão praticamente vazios, dispondo de reservas de apenas US$ 25,4 bilhões. O fim do controle sobre o câmbio, sinônimo de desvalorização do peso, deve ocorrer rapidamente, avalia o jornal. O novo ministro da Fazenda argentino, Alfonso Prat-Gay, ex-colaborador do banco de investimentos americano JP Morgan, conta com receitas das exportações de soja, trigo e milho, que os produtores bloquearam nas últimas semanas, na expectativa de uma desvalorização da moeda e do fim de taxas cobradas nas exportações, para reforçar o caixa. Haveria um estoque de grãos estimado em US$ 11,6 bilhões.

Nova equipe vai buscar dinheiro no mercado internacional

Além disso, o governo argentino deve buscar empréstimos no mercado internacional. Antes, porém, "deverá negociar novos acordos com os fundos especulativos que cobram o reembolso integral dos títulos comprados a preços baixos". Com Macri no poder, pelo menos um fundo especulativo, o americano Elliott, já deu sinais de estar disposto a retomar o diálogo com o governo argentino, informa Les Echos.

Por fim, o jornal lembra que Macri é favorável a uma retomada de contato com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que não põe os pés no país desde 2006, para "uma auditoria nas contas públicas".

Venezuela: Maduro pode ter mandato encurtado em 2016

Em página inteira dedicada à América do Sul, Les Echos também avalia a crise no governo da Venezuela, depois que o presidente Nicolás Maduro perdeu a maioria na Assembleia Legislativa. Com deputados da oposição controlando dois terços do plenário, Maduro terá surpresas a partir de 5 de janeiro, data da posse da nova legislatura.

A oposição terá poderes para mudar a Constituição, nomear membros do Conselho Nacional Eleitoral, aprovar ou modificar leis orgânicas, submeter tratados internacionais a plebiscito, e poderá, sobretudo, impor uma redução do mandato presidencial, destaca o diário.

A legislação venezuelana prevê que uma ação revogatória do mandato presidencial poderá ser solicitada pela oposição a partir de 1° de abril de 2016, quando Maduro terá cumprido a metade de seu mandato. Segundo o analista Diego Moya-Ocampos, ouvido pelo Les Echos, para permanecer no cargo até o fim do governo, "Maduro precisará manter o país em clima calmo e obter o apoio das Forças Armadas e do Superior Tribunal Federal". O exercício será missão impossível, na avaliação do diário, uma vez que Maduro já enfrenta divisões internas em seu partido, o PSUV.

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