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Homofobia

Para ativistas, ataque à boate Pulse é reflexo da homofobia no mundo

Vigília feita em Nova York após o massacre na boate gay Pulse, em Orlando, 12 de junho de 2016.
Vigília feita em Nova York após o massacre na boate gay Pulse, em Orlando, 12 de junho de 2016. MONIKA GRAFF / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
Texto por: Daniella Franco
5 min

Para muitos representantes da comunidade gay, não restam dúvidas: o atentado que deixou 49 mortos na boate Pulse, no domingo (12), em Orlando, é, antes de um ato terrorista, um reflexo da propagação da homofobia. A RFI conversou com militantes da causa LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Trangêneros) nos Estados Unidos, na França e no Brasil.

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"Foi um ataque fundamentalmente homofóbico, apesar das características terroristas. O elemento central desta barbárie é o preconceito à comunidade LGBT. Essa ação foi planejada para ser realizada em uma boate gay, justamente na Semana do Orgulho Gay", diz Carlos Magno Silva Fonseca, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Trangêneros (ABGLT).

Para o ativista, o atentado reflete o ódio propagado contra a comunidade LGBT em todo o mundo, não somente nos Estados Unidos. "Essa intolerância é divulgada cotidianamente por políticos, religiosos e outros líderes através de discursos de violência, preconceito e discriminação", ressalta.

Igualdade de direitos revolta conservadores

A recente legalização da união civil de casais do mesmo sexo nos Estados Unidos pode ter influenciado a violência contra a comunidade gay, aponta o brasileiro Guilherme Ferreira Ávila, que mora em Nova York e é presidente da associação de defesa dos direitos LGBT Behind Closed Doors (Atrás das Portas Fechadas, tradução livre). Para ele, o tratamento dado pelas grandes mídias à onda de revolta contra a decisão também pode contribuir com a propagação do ódio. "Acredito que isso possa incitar esses grupos, que são frequentemente taxados como retrógrados e antiquados, a deixar essa revolta vir à tona e praticar atos extremos", analisa.

Na França, a leitura do Centro LGBT de Paris é a mesma. Segundo a co-presidente da organização, Flora Bolter, os Estados Unidos estão em um momento inédito de abertura em relação aos direitos e do apoio à comunidade LGBT. Uma evolução, que segundo ela, reforça as tensões de quem se posiciona contra essas decisões. "Finalmente essa igualdade dos direitos e o suporte político resultam em fortes reações. Mas isso não vai nos impedir de viver e não vamos ceder a uma psicose", sublinha.

"O sentimento da comunidade gay dos EUA é de desespero"

Ávila, que morou durante dois anos em Orlando e frequentava a Pulse, conta que o sentimento entre a comunidade gay é de extrema tristeza. "Fui a uma vigília na última noite em frente à boate gay Stonewall e o sentimento é de muita dor, está todo mundo muito abalado, em estado de choque ainda", diz.

Segundo ele, o ataque contra um clube gay fere especialmente pela representatividades desses locais. "A boate é muito importante para a construção da nossa identidade e para a nossa liberdade, um ideal da comunidade como um todo. Esse é o primeiro lugar em que vamos onde temos uma verdadeira liberdade de expressão e podemos ser quem realmente somos. É onde revelamos muitas vezes uma identidade que não conseguimos revelar por inteiro na escola ou no trabalho."

O ativista brasileiro acredita que o massacre possa resultar em mudanças na sociedade norte-americana, como a instalação de câmeras em locais públicos e novas leis sobre porte de armas. Ele se preocupa, especialmente, com a estigmatização da comunidade muçulmana nos Estados Unidos, "uma homogeneização que pode agredir seguidores de uma religião no mundo todo". Para Ávila, a melhor resposta ao massacre da boate Pulse deve ser "amor, aceitação e entendimento, que é a mensagem da comunidade LGBT".

Brasil é "campeão" mundial de assassinatos de homossexuais

Fonseca ressalta que, embora a possibilidade de um ataque terrorista seja remota no Brasil, a violência contra a comunidade LGBT no país é alarmante. "Aqui, o fundamentalismo é outro, não é o islâmico, mas o religioso. Esse fundamentalismo faz propaganda diária ao discurso de ódio. Nós temos pastores que incentivam a violência em seus programas de televisão. Nossos parlamentares utilizam a própria Câmara dos Deputados para disseminar o preconceito", denuncia.

O presidente da ABGLT lembra que, segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), que há 30 anos monitora agressão contra homossexuais no país, 318 homossexuais foram mortos no Brasil em 2015, uma média de uma morte a cada 28 horas. Devido a esses números, o país é o local onde mais se assassina homossexuais no mundo.

Por isso, para o ativista, é urgente que a homofobia seja criminalizada no Brasil. Embora a discriminação seja proibida na Constituição brasileira, até hoje não existe nenhuma lei contra a violência de pessoas da comunidade LGBT. Além disso, ressalta Fonseca, é preciso que educações educativas e de conscientização sejam implementadas pelo respeito à diversidade sexual e de liberdade de gênero. "Não queremos apenas reagir, o que queremos é prevenir que massacres como o da boate Pulse também aconteçam no Brasil", conclui.

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