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Eleitores de Trump vão descobrir que foram ludibriados

Áudio 05:01
O republicano Donald Trump "é hoje o presidente-eleito da maior potência mundial. Só que não será fácil governar, mesmo com maioria republicana no Congresso."
O republicano Donald Trump "é hoje o presidente-eleito da maior potência mundial. Só que não será fácil governar, mesmo com maioria republicana no Congresso." REUTERS/Jonathan Ernst/File Photo

As sondagens não estavam tão erradas. Nos últimos dias, todos os institutos anunciavam um resultado muito apertado. Hillary venceu no voto nacional – por pouco. Só não levou porque Donald Trump ganhou três Estados chaves na velha “cintura da ferrugem” americana, por margens estreitíssimas – correspondendo 0,1% dos votantes. Mas são essas as regras do jogo. O bilionário demagogo é hoje o presidente-eleito da maior potência mundial. Só que não será fácil governar, mesmo com maioria republicana no Congresso.

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O país está profundamente dividido. Por um lado, as grandes cidades, sobretudo nas costas Este e Oeste, cada vez mais prósperas, na ponta da modernidade tecnológica, e um modo de vida cosmopolita dinamizado pela mistura de minorias étnicas. Por outro, os “grotões” das regiões centrais, cada vez mais pobres, com suas indústrias em crise, seus pequenos agricultores ultrapassados e suas populações brancas e desesperadas. As primeiras votaram Clinton, as segundas Trump.

Essa fratura, não é de hoje. Os Estados Unidos estão na dianteira de uma nova revolução socioeconômica tão profunda quanto a revolução industrial do começo do século XX. O velho modelo industrial da produção de massa para o consumo de massa, que criou a classe média americana e depois se espalhou pelo mundo inteiro, está cada dia mais enferrujado.

Outra realidade desponta: a produção em rede, conectada, informatizada e automatizada, baseada nos serviços embutidos nos produtos. Uma produção customizada para um consumo customizado. As antigas fábricas e suas tradicionais cadeias de montagem, nacionais ou transnacionais, estão se esvaindo pouco a pouco. Não há volta atrás. Os operários e empregados brancos de meia idade, ou próximos da aposentadoria, não vão recuperar seus empregos e o seu estilo de vida.

Aumentar o poderio econômico dos Estados Unidos

Ninguém sabe direito o que Trump vai fazer. Ele já começou a abrandar as suas promessas eleitorais. Como se tivesse descobrindo que um presidente americano não é tão poderoso assim. A palavra presidencial é um grande trunfo, mas governar significa negociar permanentemente com o Congresso e as múltiplas instituições americanas, que sempre complicam a ação do Executivo.

O espaço de manobra na política externa é maior. Mas Trump, até hoje, só mostrou que não tem a mínima ideia clara sobre esse assunto. Tudo vai depender do time que será nomeado. No campo econômico, a campanha se resumiu em promessas demagógicas difíceis de serem aceitas, inclusive por partes importantes do senadores e representantes republicanos.

Mas é possível perceber uma tonalidade geral. O novo presidente, cuja a única experiência é ser homem de negócios, quer aumentar ainda mais o poderio econômico dos Estados Unidos com ideias simples. A primeira é renovar a infraestrutura do país – que está bem precisando - com pesados investimentos estatais. A vantagem é criar rapidamente postos de trabalho pouco qualificados para a base do seu eleitorado. A segunda, é uma atitude protecionista contra as importações para incentivar as multinacionais americanas a produzirem no país. A terceira é aumentar a taxa de juros e abaixar radicalmente os impostos para as empresas para que elas repatriem os US$ 2,5 trilhões estacionados no exterior e apostem suas fichas na economia americana. Um verdadeiro aspirador de dinheiro que não vai deixar de fazer falta no resto do mundo.

Enterrar o velho modelo industrial

O paradoxo desta estratégia de “Primeiro a América” é que isto vai fortalecer ainda mais a transição para o novo modelo econômico de alta tecnologia. Para ser competitiva, qualquer multinacional industrial que volte para os Estados Unidos vai ter que escolher um modelo de produção altamente automatizado e informatizado, enterrando ainda mais o velho modelo industrial dos sonhos dos eleitores de Trump. Esses vão acabar descobrindo que foram ludibriados pelo magnata. Mas vai ser tarde.

Quanto à Europa e os países emergentes, eles vão ter que amargar uma queda dos investimentos, juros mais altos, e um mercado de consumo americano cada vez mais fechado. Com Donald Trump o jogo econômico global vai ser muito mais pesado.

Alfredo Valladão, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de politica internacional às segundas-feiras para a RFI

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