Venezuela/Crise

Venezuela vive caos e aumento de violência com troca de cédula

Filas em Caracas para entregar as notas de 100 bolívares nos bancos da Venezuela.
Filas em Caracas para entregar as notas de 100 bolívares nos bancos da Venezuela. REUTERS/Marco Bello
5 min

A decisão do governo venezuelano de retirar de circulação a nota de 100 bolívares desencadeou uma nova onda de violência, protestos e saques em várias regiões do país. Moradores enfrentam filas gigantescas para entregar as velhas cédulas nos bancos. A revolta se ampliou com o atraso da chegada ao mercado de novas moedas e notas prometidas pelo governo.

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Diante do caos instalado no país e da revolta popular, o presidente Nicolas Maduro se viu obrigado a prorrogar até o dia 2 de janeiro a validade das notas de 100 bolívares, que equivale a US$ 0,15, segundo o câmbio oficial. "Vocês podem continuar a utilizar as notas de 100 bolívares para suas compras e atividades", declarou o presidente durante uma reunião de governo transmitida em rede nacional de televisão.

O governo, no entanto, pediu para que os venezuelanos continuem a entregar suas cédulas aos bancos até o dia 20 de dezembro. Anunciada no último domingo e prevista para durar três dias, a retirada de circulação da cédula pegou os venezuelanos de surpresa. A decisão foi motivada, segundo Maduro, para lutar contra "máfias internacionais".

O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, durante reunião ministerial, em Caracas.
O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, durante reunião ministerial, em Caracas. Divulgação: Palácio de Miraflores

De segunda à quinta-feira os venezuelanos enfrentaram filas quilométricas para poderem entregar as notas que perderam o valor e equivalem atualmente ao preço de uma bala. Muitos moradores relataram ter feito viagens longas do interior até a capital para poder trocar as cédulas. Na sexta-feira (16), apenas duas agências do Banco Central, em Caracas e Maracaibo, podiam efetuar a troca.

O problema é que muitos entregaram o dinheiro e voltaram de mãos vazias para casa porque as novas moedas e notas, com valor 200 vezes superior, não chegaram aos bancos na quinta-feira, como previsto pelas autoridades.

Alguns funcionários de bancos, que pediram anonimato, afirmaram que as novas notas deverão chegar até o próximo final de semana. Uma das medidas para conter a revolta da população foi a decisão do governo de decretar a gratuidade nos transportes públicos como metrô e ônibus até segunda-feira (19).

Prisões, saques e mortes

Manifestações violentas foram registradas em diversas cidades da Venezuela que enfrenta uma grave crise econômica agravada pela queda do preço do barril de petróleo. A inflação do país, segundo o FMI, é de 475% este ano e a população enfrenta uma falta estimada de 80% de produtos de primeira necessidade nos supermercados e farmácias.

Segundo a oposição, quatro pessoas morreram em protestos em Ciudad Bolívar, capital do estado de Bolivar, sul do país. O balanço não foi confirmado oficialmente. O governador, aliado do presidente venezuelano, informou que 135 pessoas foram detidas por terem promovido saques.

No estado de Apure, na região centro-oeste, três bancos foram incendiados. Segundo Maduro, por membros da oposição. O governo mobilizou 58 mil militares para garantir a segurança das agências bancárias. A fronteira com a Colômbia foi fechada por 72 horas para, de acordo com o governo, combater as "máfias" que procurariam introduzir grandes quantidades de bilhetes de 100 bolívares no país.

Estar "bancarizado"

A situação crítica em que se encontra o país deu origem a uma nova expressão: estar "bancarizado", que significa ter conta em banco e cartões de crédito. Mesmo para essa camada da população a situação não é fácil.

Em entrevista à RFI por meio de redes sociais, Carlos, que vive em uma cidade distante duas horas de Caracas, relatou a dificuldade em pagar as poucas compras que conseguiu fazer no supermercado diante da escassez de produtos. "O sistema de pagamento entrou em colapso e cada cliente teve que esperar 20 minutos para passar o cartão", explicou.

Enquanto Carlos estava em um supermercado, sua esposa fazia fila em outro que ainda recebia a nota de 100 bolívares, apesar da queda de 20% do valor.

 

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