Acessar o conteúdo principal
RFI Convida

Sucesso na França, Flavia Coelho denuncia “volta da censura” e mistura de “medo e corrupção” no Brasil

Áudio 11:39
A cantora carioca Flavia Coelho teve a turnê de seu quarto álbum, "DNA", interrompida pela chegada da pandemia da Covid-19 na França
A cantora carioca Flavia Coelho teve a turnê de seu quarto álbum, "DNA", interrompida pela chegada da pandemia da Covid-19 na França Martin BUREAU / AFP
Por: Cristiane Capuchinho

Nas sombras de uma igreja, a cantora Flavia Coelho expõe a volta da censura, a violência e a corrupção em uma música sobre sua “Cidade Perdida”, o Rio de Janeiro. O clipe lançado neste mês na França foi destaque na imprensa francesa e é parte da ação de uma artista que defende como papel da cultura retratar os problemas da sociedade: “Quem cala consente”.

Publicidade

Em seu quarto álbum, “DNA”, a carioca Flávia Coelho apresenta uma música de letra “nua e crua” sobre sua cidade natal. Escrita após a votação que elegeu o presidente Jair Bolsonaro, a canção fala do crime organizado, da população que vive com medo e de uma máfia ligada à corrupção: “o começo do fim”, determina.

Lançado em 14 de maio, o clipe gravado no prédio de uma antiga igreja ganhou meia página no jornal Le Monde, e destaques em outros veículos franceses como a televisão FranceInfo.

“Nunca quis denegrir a imagem do Brasil, mas não posso fechar meus olhos para o que está acontecendo”, diz em entrevista à RFI Brasil. “Esta extrema direita reacionária que temos hoje é negativa, então não falar dela é consentir.”

Morando na França desde 2006 e com uma carreira bem-sucedida no país, Flavia conta que sempre tentou dar um tom positivo a suas músicas reivindicativas, mas que dessa vez foi diferente: "Eu não vi luz no fim do túnel".

Em março, a cantora teve de interromper a turnê do disco lançado no final de 2019 por conta da pandemia do coronavírus. A agenda, que previa shows pela França, pela Bélgica e muitos festivais, está em pausa até a liberação do governo francês.

Em confinamento em seu estúdio desde março, Flavia promoveu lives para distrair seu público durante todo o período, somando mais de 1 milhão de visualizações.

“Era a única alternativa que eu tinha para dar às pessoas tudo o que elas me dão há mais de dez anos aqui”, afirma. “É o trabalho da cultura o de distrair, de dar um certo momento de calma.”

A pausa obrigatória deu origem a mais uma música, “Bonne Nouvelle”, em que Flavia prega a solidariedade e diz que mesmo trancados em casa, “não estamos isolados”.

Sem saber quando poderá viajar novamente ao Brasil, ela olha com preocupação para o país e pede o fim “dessa adoração de um personagem que não está trazendo soluções para o país e pensar mais nas pessoas mais pobres, que estão precisando”.

Confira a entrevista concedida à RFI de sua casa em Paris:

RFI - Seu novo clipe é sombrio, feito dentro de uma igreja, e com a imagem forte de você velando um homem estendido, como a Pietá. Como surgiu esta música e este vídeo?

Flávia Coelho - A música “Cidade Perdida” nasceu há quase um ano e meio. Eu escrevi essa canção no dia do resultado das últimas eleições no Brasil [que elegeram o presidente Jair Bolsonaro]. Eu fiquei muito triste, tive quase uma pequena depressão por duas semanas. Não esperava que um partido tão reacionário, de extrema direita, chegasse ao poder no país. Na época, eu estava começando a escrever as músicas e, quando isso aconteceu, resolvi que tinha que falar da minha cidade.

Sempre nas minhas canções tinha um lado reivindicativo, mas com um olhar positivo. Dessa vez foi diferente, eu não vi a luz no fim do túnel, eu vi o fechamento do túnel. Sabendo que essas pessoas eleitas têm uma história complicada no Rio de Janeiro, com associações com grupos violentos da cidade.

Tenho 39 anos e passei 26 anos no Rio de Janeiro, convivendo com aquela violência, com a corrupção, com as desigualdades e agora ver que no dia das eleições, o povo resolve colocar alguém que está ligado diretamente com esse tipo de corrupção, pensei agora eu preciso escrever uma música com a letra nua e crua para dizer o que precisa ser dito.

A ideia de fazer este clipe foi dos diretores franceses. A ideia de usar uma igreja era para mostrar para as pessoas como pano de fundo o que é a influência desse evangelismo tóxico que existe no Brasil e que é pró-arma, etc.

Acho que quem cala consente, então os artistas que querem, precisam falar. Não é porque eu estou na Europa que não vivo de perto o que está acontecendo no Brasil. Tento me solidarizar e ajudar no que eu posso. Nunca quis denegrir a imagem do Brasil, mas não posso fechar meus olhos para o que está acontecendo.

RFI - No meio desse campo minado que virou a discussão sobre política brasileira. Para você, qual é o papel da arte neste momento?

O papel da arte é retratar o que é bom e o que é ruim na sociedade em que vive. Foi o que todos os pintores fizeram, pintaram guerras, pintaram o evangelho. Foi o que todos os músicos fizeram. Se voltarmos à época dos grandes festivais nos anos 60, a palavra dos artistas na época era a de reivindicar, ir contra a ditadura. Havia, claro, uma outra maneira de escrever, lembro de letras como Cálice [de Gilberto Gil e Chico Buarque]. O papel do artista é esse.

Volto à ideia de quem cala consente. Esta extrema direita reacionária que temos hoje no Brasil é negativa, então não falar dela é consentir. É muito triste os artistas não falarem do que está acontecendo hoje.

Os artistas estão sempre solicitando que as pessoas comprem seus discos, vão aos shows. Eu acho que um pouco de reflexão política é necessária.

RFI - Você estava em plena turnê com uma agenda de shows concorrida para apresentar seu novo álbum quando chegou a pandemia. Como você está reorganizando sua vida profissional?

Graças a nossa senhora da internet, nós pudemos fazer muitas coisas. Desde o dia 14 de março, que foi quando o lockdown começou realmente aqui na França, eu e meu produtor decidimos nos confinar no estúdio e comecei a fazer essas lives porque era necessário.

É o trabalho da cultura, de distrair, dar um certo momento de calma para que elas pensem em outras coisas. A única alternativa que eu tinha para dar às pessoas tudo o que elas me dão há mais de dez anos aqui era dar um pouco de música.

Durante o confinamento, eu continuei a produzir, a fazer música. Acabamos de lançar uma música chamada “Bonne Nouvelle”, que em francês significa Boas Notícias, que é o que eu gostaria que tivéssemos logo, boas notícias.

RFI - Foram muitas lives ao longo de dois meses e mais de um milhão de visualizações. A relação com o público mudou?

Claro que muda. Somos brasileiros, a gente gosta de pegar, de abraçar, de ver a galera. Mas foi tão legal, foram tão fiéis. Teve gente que queria até abrir uma vaquinha para me dar grana, imagina. Eu disse gente façam essas vaquinhas para os enfermeiros, para os médicos.

Acho que o trabalho dos artistas foi esse, de tentar melhorar um pouco a cabeça. As notícias eram tão horríveis que a gente precisava tentar melhorar um pouco a condição de vida das pessoas.

RFI – Em “Bonne Nouvelle”, você diz vamos ficar fechados, mas não isolados, e essa é a boa notícia. Qual é a notícia que você gostaria de dar aos brasileiros neste momento de aumento de casos e mortes por lá?

O Brasil vive diferentes níveis da doença por causa da desigualdade. Eu queria muito que as pessoas privilegiadas parem de pensar que é só uma gripezinha e tentar fazer as pessoas mais simples voltarem a trabalhar. Acho que um pouco de distribuição social, mais doações, mais solidariedade. Parar com essa adoração de um personagem que não está trazendo soluções para o país e pensar mais nessas pessoas mais pobres que estão precisando.

Um pouco mais de solidariedade, ter um pouco mais de empatia. Pensar que números são seres humanos.

 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.