Brasil/Eleições

Para professor, Dilma começaria com menos impacto internacional. Assista ao vídeo

Stéphane Monclaire, professor de ciência política da universidade Sorbonne em Paris.
Stéphane Monclaire, professor de ciência política da universidade Sorbonne em Paris. RFI

Stéphane Monclaire, professor de ciências políticas na universidade Sorbonne, acredita que uma vitória de Dilma Roussef nas eleições presidenciais pode significar para o Brasil uma perda de importância no contexto internacional durante o início do novo governo. Além disso, devido à sua experiência e ao seu temperamento, Dilma corre o risco de privilegiar o trabalho de gabinete em detrimento do contato com a população.

Publicidade

"Se for eleita, de que forma Dilma Rousseff vai governar o Brasil? Claro que poderíamos fazer a mesma pergunta em relação a uma eventual vitória de José Serra. As funções do presidente da República são bem conhecidas. Os poderes, as possibilidades de realizar e de impedir que a constituição de 1988 dá ao chefe do Estado são numerosas e importantes. A prática, isto é, os usos habituais destes poderes e dos outros recursos da presidência da República, como o fácil acesso às mídias e o conjunto dos meios de pressão e sedução suscetíveis de engendrar no Congresso uma maioria para apoiar sua política, fazem do presidente brasileiro um chefe de Estado mais poderoso do que o presidente Barack Obama e do que o presidente Nicolas Sarkozy. Isso no plano interno, evidentemente.

A Constituição, a prática ou, mais exatamente, as maneiras como os sucessivos titulares do Palácio do Planalto governaramo Brasil desde 1988 constituem o que se chama “tarefa presidencial”. Essa tarefa não é rígida, ela pode evoluir com o tempo em função principalmente das características pessoais do titular da Presidência. Durante os 8 anos do mandato Lula essa tarefa evoluiu muito. Por exemplo, Lula viajou muito mais do que Cardoso ao exterior, participou de muito mais cúpulas internacionais, algumas vezes como anfitrião. Ele tem uma relação muito mais frequente e, além disso, muito mais carinhosa com os brasileiros das camadas populares. Ele dispõe de um carisma impressionante, que se tornou uma de suas principais armas políticas. Os brasileiros se acostumaram a ver o Brasil ser governado desta forma, a ouvir o titular da Presidência falar da maneira simples e eficaz que caracteriza Lula.

Dilma Rousseff não tem ainda experiência internacional e não é ainda bem conhecida da mídia internacional de referência. Fernando Henrique Cardoso teve boa reputação antes de tornar-se presidente e Lula já era famoso, já fascinava os jornalistas. Não é o caso de Dilma Rousseff e isso pode prejudicar um pouco, nos primeiros meses do seu mandato, os avanços do Brasil na cena internacional.

Um outro aspecto a considerar é que nestes últimos anos Dilma Rousseff era chefe da Casa Civil. Ela administrava muitas coisas e fazia todos os dias várias abritragens entre os pedidos dos vários ministérios do governo Lula. Dilma é uma pessoa que gosta mais de documentos que de reuniões. Eis porque é bem provável que, uma vez presidente, Dilma tenha a tentação de continuar a fazer muitas arbitragens, incluindo boa parte daquelas que poderiam ser feitas na Casa Civil. Dito de outra maneira, ela vai centralizar as decisões no gabinete da presidente. O tempo que ela vai gastar com isso não poderá dedicá-lo às viagens dentro do Brasil, aos encontros com a sociedade, às atividades que Lula fazia com frequencia e que tanto agradavam à população. Será que os brasileiros vão aprovar esta maneira diferente de governar o Brasil? A resposta virá daqui a alguns meses."
 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.