Posse Dilma / Reações

Nobel da Paz pede que Dilma ajude os direitos humanos no Irã

Shirin Ebadi ganhou o Nobel por sua ação em favor dos direitos humanos e da democracia e hoje vive exilada na Europa.
Shirin Ebadi ganhou o Nobel por sua ação em favor dos direitos humanos e da democracia e hoje vive exilada na Europa. Reuters/Denis Balibouse

Em entrevista exclusiva à Radio França Internacional, a iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz de 2003, comenta a eleição de Dilma Rousseff e as relações de Brasília com Teerã. Ela espera que a nova presidente do Brasil tenha uma posição mais firme sobre a questão dos direitos humanos no Irã.

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Durante o governo Lula, o Brasil estreitou os laços com o Irã, intensificando o comércio e os investimentos e até mediando um acordo nuclear em maio de 2010. Mas, em uma República Islâmica com valores e práticas medievais, onde a mulher não tem nenhum direito e sofre injustiças inaceitáveis, essa relação também é alvo de críticas.

No caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, acusada de adultério e condenada à morte por apedrejamento, sentença mudada posteriormente para enforcamento, o presidente Lula da Silva chegou a oferecer asilo à mulher, uma oferta definida como "ingênua" pelo presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. No entanto, o Brasil se absteve na votação da resolução da ONU que condenava o apedrejamento.

Nesse contexto, a presidente Dilma Rousseff, mais crítica, já declarou que pretende modificar a forma de votação do Brasil em resoluções ligadas às violações dos direitos humanos no Irã. A presidente considerou um erro a abstenção brasileira na resolução sobre o apedrejamento.

As relações entre Brasil e Irã são acompanhadas de perto pela advogada iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz de 2003, primeira mulher a exercer as funções de juíza durante o regime do Xá Mohammed Reza Pahlavi, e destituída pelo aiatolá Khomeiny. Ela ganhou o Nobel por sua ação em favor dos direitos humanos e da democracia e hoje vive exilada na Europa. A advogada desaprova totalmente a atitude do presidente brasileiro em relação ao Irã e tem uma mensagem sem equívocos para Dilma: dialogar, sim, mas sem nenhuma condescendência.

"Concordo que os temas ligados aos direitos humanos e à democracia sejam discutidos com o Irã. Sob esse ponto de vista, concordo que o Brasil pergunte ao governo iraniano por que razão 40 blogueiros estão presos; que indague também que tipo de tratamento recebem os prisioneiros políticos para que façam greves de fome para protestar contra sua situação; e, finalmente, porque 100 estudantes iranianos continuam presos. Espero, então, que além da questão nuclear, esses problemas também possam abordados entre os dois governos", espera a advogada.

Shirin Ebadi considera inadmissível que Lula da Silva não tenha se aproximado dos que sofrem no Irã. "O presidente Lula da Silva se apresenta como um defensor dos trabalhadores mas, durante sua visita a Teerã, ele se recusou a encontrar as famílias dos trabalhadores presos, especialmente Mansour Ossanlouh, que desafiou as autoridades criando o primeiro sindicato independente dos transportes coletivos do país e por isso está na cadeia há dois anos. Fiquei satisfeita em saber que a questão de Sakineh Ashtiani foi abordada pelos dirigentes estrangeiros e pelo presidente Lula, porém, espero que a questão dos direitos humanos não se reduza a esse caso em particular. Seria preciso que Lula tivesse perguntado porque os trabalhadores e estudantes iranianos estão detidos, porque os defensores dos direitos humanos e a ativista Nasrim Soutoudeh, cuja saúde está em estado desesperador, continuam na prisão ", observa Shirin Ebadi.

A Prêmio Nobel da Paz espera também que os defensores dos direitos humanos na sociedade civil brasileira possam chamar a atenção de sua nova presidente sobre o agravamento da situação no Irã nessa área.

 

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