Argentina/Brasil

Reunião deve definir solução ou agravamento do conflito comercial

Montadoras argentinas criticam medidas de importação brasileiras‎.
Montadoras argentinas criticam medidas de importação brasileiras‎. Reuters

Brasil e Argentina partem para o segundo round no conflito que já afeta mais da metade do comércio bilateral e que já é considerado o maior em 20 anos de Mercosul, bloco onde o comércio deveria ser livre. A presença dos ministros da Indústria e do Comércio de ambos os países e não apenas de técnicos é um sinal da vontade política para uma solução.

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De Márcio Resende, correspondente da RFI, em Buenos Aires,

Nesta quinta-feira em Brasília, o ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio do Brasil, Fernando Pimentel e a sua colega argentina, Débora Giorgi, tentam um acordo que permita desativar a tensão comercial dos dois lados da fronteira.

Ambos os governos chegam a esta reunião com um certo clima de alívio, gerado nas últimas 48 horas. Para que fosse possível uma reunião ministerial, tiveram gestos de boa vontade um com o outro: o Brasil liberou os cerca de 4 mil carros argentinos retidos na fronteira há cerca de três semanas enquanto a Argentina prometeu acelerar a liberação de produtos brasileiros retidos na Alfândega como pneus, baterias, calçados e eletrodomésticos. Alguns desses produtos estão presos há 450 dias embora o limite máximo estabelecido pela Organização Mundial do Comércio seja de 60 dias.

Primeiro reúnem-se os secretários de Indústria e Comércio de ambos os países às 9 da manhã para uma negociação técnica. No final da manhã, somam-se os ministros para as decisões políticas que os técnicos não conseguirem superar.

Este segundo encontro tenta obter o que não foi possível na semana passada, quando, em Buenos Aires, os dois dias de reunião entre os secretários de Indústria e Comércio terminaram sem avanços.

Os governos têm interesse de confinar o conflito no campo comercial, sem contágio no plano político. No próximo dia 24 de Junho, as presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner vão participar da Cúpula do Mercosul em Assunção no Paraguai. Um dia antes, Cristina deve lançar a sua candidatura à reeleição. A continuidade do conflito seria um desgaste desnecessário.

Para o Brasil ceder, é preciso uma contrapartida argentina. Na semana passada, os negociadores brasileiros indicaram que a Argentina pedia mais do que estava disposta a dar. Essa falta de proporcionalidade emperrou as negociações.

O ponto de maior intransigência da Argentina é quanto aos eletrodomésticos e às máquinas agrícolas do Brasil. A Argentina condiciona a abertura a esses produtos à entrada de produtos agrícolas argentinos no Brasil como azeite de oliva, vinhos (mosto de uva), cítricos e laticínios, produtos. Mesmo assim, a abertura argentina seria apenas parcial com a imposição de cotas para as empresas brasileiras desses setores.

O setor de automóveis é um dos poucos onde a Argentina vende mais ao Brasil do que lhe compra (413 milhões de dólares). Mas os argentinos preferem ver esse superávit de outra maneira. Incluem o setor de autopeças onde são deficitários na balança comercial. Assim, o setor automotivo geral tem um déficit de 1,9 bilhão de dólares para os argentinos.

Nesse ponto, a Argentina demonstra que o Brasil não pode sustentar por muito tempo as licenças não-automáticas que impôs aos automóveis importados. Os negociadores argentinos sabem que, ao restringir a entrada de carros argentinos, o Brasil acaba por prejudicar a sua indústria de autopeças que exporta à Argentina para produzir os carros que depois serão comprados pelo próprio Brasil.

Para a Argentina, o número que importa é o déficit comercial com o Brasil desde 2003 e que chegou a 4 bilhões de dólares em 2010. Neste ano de 2011, os analistas projetam déficit ainda maior de 6 ou 7 bilhões de dólares. O comércio bilateral total é de 32 bilhões de dólares.

O governo brasileiro aplicou as licenças não-automáticas à importação de automóveis há três semanas. Embora o Brasil negue, a medida foi interpretada como uma represália à Argentina que impõe todo tipo de restrição ao Brasil há seis anos. Atualmente, 24% dos produtos brasileiros sofrem para entrar na Argentina.

 

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