Carne/Câncer

Produtores do Brasil, França e EUA criticam estudo que acusa carne de provocar câncer

Grandes produtores mundiais contestaram o estudo que acusa o consumo excessivo de carne de provocar câncer.
Grandes produtores mundiais contestaram o estudo que acusa o consumo excessivo de carne de provocar câncer. REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Da França aos Estados Unidos, passando pelo Brasil, a indústria da carne reagiu duramente após a publicação, nesta segunda-feira (26), de um estudo internacional que acusa a carne vermelha e os embutidos de aumentar o risco de câncer. Os principais produtores do setor também defenderam o valor nutricional da carne para a alimentação.

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A Agência Internacional para a Pesquisa sobre o Câncer (IARC, na sigla em inglês), subordinada à Organização Mundial da Saúde (OMS), colocou as carnes processadas, como embutidos ou frios, no Grupo 1 de risco dos produtos que levam ao desenvolvimento de câncer, principalmente o colorretal. A pesquisa, que reuniu 800 estudos, aponta que o consumo excessivo de carnes vermelhas em geral - inclusive bovina, suína e ovina - é "provavelmente cancerígeno".

Nos Estados Unidos, maior produtor mundial de carne vermelha, os profissionais do setor estavam de armas em punho há semanas, propondo análises antes mesmo da publicação do estudo da IARC. O instituto americano da carne (NAMI, na sigla em inglês) criticou o relatório da OMS por considerar que o documento constitui um "desafio ao senso comum". Os autores do estudo, acusa a NAMI, "trituraram os dados para chegar a um resultado específico".

Industriais norte-americanos e franceses recordam que a carne é apenas um dos mais de 940 produtos, dos mais diversos, classificados como provavelmente cancerígenos pela agência especializada da OMS. "Se nós seguíssemos à risca a lista (...) do IARC, ficaria claro que o simples fato de viver na Terra seria um risco de câncer", rebateu a Associação da Indústria de Carne Americana. A NAMI enfatiza que "a ciência tem mostrado que o câncer é uma doença complexa que não é causada apenas por alguns alimentos".

Um argumento reproduzido praticamente de forma idêntica pelos industriais europeus. "É inadequado atribuir um único fator a um risco aumentado de câncer. É um assunto muito complexo que pode depender de uma combinação de muitos outros fatores, como idade, genética, dieta, ambiente e estilo de vida", explica em comunicado o Centro de Ligação para a Indústria de Processamento de Carne na União Europeia.

Brasil diz que problema está nos aditivos

No Brasil, segundo maior produtor de carne bovina, os exportadores enfatizam, como os colegas dos Estados Unidos e da França "os benefícios nutricionais para a saúde humana trazidos pelo consumo de carne vermelha e de outras proteínas" animais. Mesmo que "o consumo excessivo não deva ser promovido", é possível "ter prazer e obter um equilíbrio nutricional" nas refeições combinando carne e legumes, afirma Xavier Beulin, presidente da FNSEA, maior sindicato agrícola francês.

"A carne em si não apresenta nenhuma dificuldade. O problema vem dos produtos à base de carne, nos quais são acrescentados aditivos como nitratos e nitritos", que podem tornar-se cancerígenos com o cozimento, afirma o Instituto Nacional da Carne do Uruguai, que alerta também para a falta de fibras de efeito protetor na dieta moderna.

Na França, primeiro produtor europeu de carne bovina, as federações de produtores de embutidos insistem sobre o problema da quantidade. Segundo o estudo, o risco de câncer colorretal pode aumentar em 17% para cada porção de 100 gramas de carne consumida por dia, e em 18% para cada porção de 50 gramas de embutidos. Mas o consumo médio de carne na França é de 52,5 gramas por dia e por habitante, e de 35 gramas para os embutidos. "Os pecuaristas (franceses) devem se perguntar se tudo isso é sério, já que eles conhecem as maiores dificuldades", apesar da produção de "raças de altíssimo valor agregado", acrescentou Beulin.

Os países industrializados viram o consumo de carne diminuir nos últimos anos – efeito da crise econômica, mas também das críticas sobre o impacto que a dieta carnívora tem sobre a saúde e o meio ambiente. Em contrapartida, o volume de carne consumida aumentou claramente graças aos países emergentes, liderados por Brasil e China.

O consumo cresceu 15% entre 2008 e 2014 na China, enquanto recuou nas mesmas proporções na União Europeia, segundo a agência governamental francesa FranceAgriMer.

(Com informações da AFP)

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