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Probabilidade de impeachment de Dilma é muito pequena, dizem especialistas

Dilma Rousseff
Dilma Rousseff REUTERS/Ueslei Marcelino

A probabilidade de que a presidente Dilma Rousseff sofra um impeachment é muito pequena, segundo cientistas políticos entrevistados pela RFI. Gaspard Estrada, da Sciences Po de Paris, e Frédéric Louault, da Universidade Livre de Bruxelas, opinam que a presidente deve conseguir angariar os 171 votos necessários para barrar o processo na Câmara, caso seja aprovado por uma comissão especial. Na quarta-feira (2), o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, autorizou a abertura do processo de impeachment, a partir de um pedido de partidos da oposição.

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Para Gaspard Estrada, o governo de Dilma vai criar uma ofensiva jurídica e política para evitar o pior. "Em primeiro lugar, o governo vai se focar em acompanhar e monitorar o processo de impeachment na Câmara e criar uma ofensiva para reverter essa situação. Por um lado, deve conseguir os 171 votos de que ela precisa para se manter no cargo. E, por outro lado, o governo tem sinalizado a vontade de levar este pleito ao Supremo Tribunal Federal para contestar em termos jurídicos a abertura do processo", analisa.

Frédéric Louault diz que, para salvar Dilma, a negociação com setores do PMDB vai ser fundamental - assim como os papéis de Renan Calheiros, presidente do Senado, e do vice-presidente Michel Temer.

"A ideia do governo é estabilizar a situação. Primeiro seria obter a renúncia de Eduardo Cunha e negociar com alguns setores do PMDB o preço político da estabilidade até o final do mandato. Para isso, o papel de Renan Calheiros é importante e também do vice-presidente, Michel Temer, cuja posição é muito difícil saber hoje em dia. Ele está entre os dois principais atores desse jogo político, Dilma e Cunha. Não se sabe qual seria no fundo a posição dele. É uma coisa muito importante que a gente vai ter que seguir", afirma.

Chances mínimas

Louault considera que as chances de Dilma deixar o cargo são mínimas e compara a situação com a do ex-presidente Fernando Collor, que sofreu impeachment em 1992. "Existe a possibilidade, mas acho que a probabilidade é bastante baixa. Historicamente a política brasileira é feita com negociações, com pragmatismo. Houve, claro, um antecedente histórico, com o impeachment do Fernando Collor. Mas as acusações não eram do mesmo tipo, eram de corrupção. E a base partidária do Collor era muito mais frágil."

Segundo ele, a probabilidade de uma renúncia da presidente é menor ainda. "Vai ser um período de dificuldade na vida política brasileira nos próximos meses. Politicamente vai ser caro para ela e para o PT, mas acho que ela vai conseguir se manter no poder até o final do mandato", opina.

Para Estrada, a atual situação pode, entretanto, reverter paralisia política do país. "Vimos neste ano que a fragmentação da base aliada é uma realidade, então é difícil fazer previsões no Brasil. O que eu acho que é importante é que abertura do processo vai destravar a paralisia política que existe hoje em Brasília, ligada a uma relação com o Congresso muito turbulenta, que não ajuda nem o governo nem a própria oposição. E muito menos o Brasil, que enfrenta uma grave crise econômica, alimentada pela crise política."

Estrada analisa que a cassação de Eduardo Cunha é um cenário bem mais provável que o impeachment de Dilma. "A saída, seja da Dilma ou do Cunha, vai recompor um pouco a situação em Brasília. Mas eu acho que é mais provável que a presidente Dilma fique no cargo, porque ela está no governo. E obter 171 votos é totalmente alcançável pelo governo. Não é impossível que haja surpresas. A própria abertura foi uma surpresa ontem. Então não posso descartar nada. Mas o mais provável é que Dilma fique no cargo e Cunha seja cassado pelo Conselho de Ética da Câmara.

Retaliação de Cunha

Os dois cientistas políticos concordam que a autorização do processo de impeachment foi uma retaliação de Eduardo Cunha à decisão de deputados do PT de votar contra ele no Conselho de Ética da Câmara, onde é investigado por suposta participação no escândalo da Lava Jato.

Ambos também afirmam que o motivo alegado por Cunha, as chamadas pedaladas fiscais, não é legítimo. "Sem falar em termos jurídicos, a abertura é uma resposta política do presidente da Câmara ao PT logo após o anúncio de que o partido não iria apoiar a continuidade do presidente da Câmara. A decisão foi baseada em provas apontadas pela polícia suíça da existência de contas não declaradas do deputado nesse país europeu. Desse ponto de vista, acho que Cunha está usando seu cargo em benefício próprio."

O presidente da Câmara, que rompeu com o governo Dilma em julho, prometeu em entrevista isenção na condução do caso. Já a presidente Dilma Rousseff afirmou que está indignada e que não cometeu nenhum ato ilícito.

Entrevista com cientistas políticos

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