Moody’s pode rebaixar Brasil nas próximas semanas, diz analista francês

Sede da Agência de notação de risco Moody's.
Sede da Agência de notação de risco Moody's. AFP PHOTO/Emmanuel Dunand

Depois de Standard and Poor's e Fitch, a agência Moody’s também deverá rebaixar o grau de investimento do Brasil para “especulativo” nas próximas semanas. A aposta é do consultor financeiro francês Norbert Gaillard, para quem a nota brasileira não deverá voltar a subir antes do final desta década. “Os mercados detestam incertezas, e a situação política brasileira é incerta”, afirma o economista.

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Para Gaillard, que presta consultoria financeira para instituições como o Banco Mundial, OCDE e Parlamento Europeu, o primeiro passo para o país pensar em recuperar sua imagem junto aos investidores é definir rapidamente o futuro da presidente Dilma Rousseff, que é alvo de um processo de impeachment.

“A estabilidade política foi um dos elementos que levaram o Brasil a atingir uma nota ‘triplo B’ (grau de investimento), no final da última década”, afirma Gaillard, para quem a crise de confiança atual é resultado da junção de pelo menos três fatores: a maior recessão em 20 anos, indefinição política e descontrole das contas públicas.

Imagem do Brasil na Europa

Segundo Gaillard, as opiniões de analistas e investidores europeus sobre o futuro econômico do Brasil estão divididas. A análise feita hoje, em perspectiva, sobre o crescimento verificado entre 2003 e 2008 é de que o governo Lula se beneficiou de um “lance de sorte”, com uma conjunção internacional favorável. “Mas o Brasil soube aproveitar essa sorte, transmitindo segurança para os investidores, que ficaram agradavelmente surpresos”, afirma o economista. “O comportamento do governo foi distante do PT dos anos 80, que era comparável a Hugo Chávez.”

O escândalo de corrupção na Petrobras teria sido decisivo para contaminar a confiança internacional sobre todas as empresas brasileiras e no Brasil “enquanto país emergente e destino de investimentos ocidentais”. “O país tem potencial de crescimento, há dinamismo na economia brasileira, mas também há freios em nível político e em certas práticas de negócios”, afirma Gaillard, referindo-se à corrupção.

Desprezo da Europa pelas agências

Enquanto as notas das agências de risco tiram o sono do governo brasileiro, na Europa a tendência é de valorizar cada vez menos este tipo de avaliação. No final de 2014, a Fitch também reduziu a nota francesa – de AA+ para AA. A reação do governo francês à época foi considerada de desprezo, com o porta-voz do governo, Stéphane Le Foll, dizendo que “as agências fazem seu trabalho, e nós fazemos o nosso”.

A postura do governo francês reflete um comportamento comum no bloco europeu desde que adotou uma política monetária relativamente unificada, sob o comando do italiano Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu. O resgate à Grécia oferecido pelos países do bloco seria a prova de que a União Europeia poderia oferecer segurança a seus membros e “esnobar” as agências de notação. Nada mais enganoso, segundo Norbert Gaillard, que também é autor do livro Les Agences de Notation, que analisa o peso das três grandes agências de avaliação de risco na economia europeia e americana.

“Temos juros baixos e notas de risco estabilizadas, então os políticos falam que as agências hoje têm menos importância”, afirma Gaillard. Para o analista, este momento econômico, ainda fruto da crise de 2008, deve encerrar seu ciclo em breve. O novo contexto, com a normalização monetária dos Estados Unidos, fará com que “a discriminação clássica em função dos fundamentos macroeconômicos” volte ao palco. “E então voltaremos a falar das agências de notação”, prevê.

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