Linha Direta

Para imprensa dos EUA, crise no Brasil chegou a um ponto imprevisível

Áudio 04:36
Comissão do impeachment reunida para votar relatório do deputado Jovair Arantes (PTB-GO).
Comissão do impeachment reunida para votar relatório do deputado Jovair Arantes (PTB-GO). Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados

A comissão especial que analisou o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff aprovou nesta segunda-feira (11) o relatório do deputado oposicionista Jovair Arantes (PTB-GO), aliado do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, por 38 votos a 27. 

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Eduardo Graça, correspondente da RFI Brasil em Nova York,

O relatório é favorável à abertura de processo contra a presidente por conta das chamadas pedaladas fiscais, que, no entender dos parlamentares, caracterizam crime de responsabilidade. Curiosamente, 35 destes deputados respondem, eles próprios, a 153 inquéritos, ações criminais, cíveis e de rejeição de aprovação de contas.

Como Cunha está tocando o processo em velocidade máxima, a votação no plenário da Câmara deve acontecer neste domingo (17) e a grande imprensa americana prepara uma cobertura de peso para o momento em que os deputados-federais decidirão se a presidente será julgada no Senado.

O resultado da votação já era esperado e foi tratado pela grande imprensa americana como a preliminar de uma grande partida a ser jogada no próximo domingo. Entre os jornais americanos, o campeão de vendas, o conservador “Wall Street Journal”, destacou que, em São Paulo, “o centro nervoso da oposição a Dilma”, houve um “buzinaço” de apoio ao impeachment e moradores celebraram ao som das vuvuzelas, como se fosse final de campeonato de futebol.

Já no Rio, ao contrário, informa o jornal, milhares de apoiadores do governo saíram às ruas para denunciar o processo, que veem como um golpe de Estado. O jornal destaca o fato de os brasileiros, como prova pesquisa do Datafolha, estarem mais divididos do que nunca em relação ao impeachment e nada felizes com o vice-presidente Michel Temer e Cunha, ambos do PMDB, sendo os próximos na linha de sucessão.

Reações durante a votação

O jornal mais influente dos EUA, o “New York Times”, tratou do clima da votação, informando seus leitores que deputados gritaram palavras de ordem uns contra os outros no momento em que “ a crise política brasileira chegou a seu ponto mais imprevisível.”

E mais: diz que Dilma é uma figura rara na política brasileira por ser uma das poucas a não sofrer acusação de enriquecimento ilícito. Assim como o “Journal”, o “Times” também deu espaço, em tom de espanto, para a gravação “vazada por engano” de Temer, aquela em que o vice já trata de seu “governo de salvação nacional”.

“Washington Post” lembrou que no áudio Temer busca assegurar aos mais pobres que programas de alcance social imenso, como o Bolsa Família, não serão desmantelados em seu governo, já antevendo a reação de setores da sociedade ao seu governo.

Na redes de televisão americanas, no entanto, o tom foi menos noticioso e mais analítico. Além das imagens de deputados cantando como se estivessem em um estádio de futebol, com gritos de “fora PT” de um lado e “não vai ter golpe” de outro, canais como a CNN procuraram contextualizar a crise brasileira, explicando os motivos pelos quais os brasileiros, e o Congresso, estão frustrados com o governo Dilma Rousseff, e como a crise política está deixando em segundo plano tanto as Olimpíadas quanto da débâcle financeira do país.

Mercados reagem à possibilidade concreta de impeachment

O sinal mais importante do mercado veio do Brasil mesmo, com a valorização do Real frente ao Dólar em seu nível mais alto em oito meses. Wall Street lê este fato como o apoio claro do mercado ao impeachment da presidente.

Já o governo americano tem se mantido, ao menos publicamente, distante da crise política brasileira. Como não se sabe em Washington se a Casa Branca terá de lidar, nos próximos anos, com a presidente Dilma ou o presidente Temer, se observa com atenção os movimentos desta semana.

Aliás, o que todos nós estamos fazendo, já que a única certeza do momento em se tratando do calvário político brasileiro, é justamente a imprevisibilidade do voto dos deputados-federais. Ou seja, se a oposição vai conseguir os 342 votos ou se o governo chegará aos 171 que assegurariam o mandato de Dilma.

 

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