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Brasil/Michel Temer

O Michel que ninguém vê

O vice-presidente Michel Temer
O vice-presidente Michel Temer ASCOM/VPR
5 min

“Vim aqui só para comer quibe”, brincou um deputado ao entrar no Palácio do Jaburu, residência oficial do presidente em exercício Michel Temer. O típico bolinho de massa com carne e ervas da cozinha árabe é um tira-gosto de todas as horas do peemedebista, de origem libanesa. Já na hora do jantar, ele não dispensa comida italiana – sendo o restaurante Gero Fasano, em São Paulo, um dos prediletos do futuro presidente.

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Luciana Marques, correspondente da RFI em Brasília

Temer também é fiel ao cabeleireiro - o famoso Jassa, que também corta as madeixas de Silvio Santos. Sempre bem penteado e de barba feita, o presidente interino se apresenta com a cordialidade que acredita fazer parte de seu jeito de ser.

Há quem descreva Temer como um “lorde inglês”, que fala baixo e dificilmente sai do sério. Pontualmente às 9h, ele está pronto para o trabalho: já tomou café da manhã, leu jornais, ligou para assessores e fez a caminhada matinal – na qual aproveita para monitorar ninhos de emas do palácio, que de vez em quando estão com ovos. Católico, vai à missa só de vez em quando. Já participou de reuniões da Maçonaria Grandes Orientes Independente – hoje não frequenta mais. O que é comum mesmo no cotidiano de Temer é a romaria de políticos no seu gabinete.

A rotina pesada das negociações de bastidores se contrasta com a de um Michel quase sete décadas mais novo que o pai – o Michelzinho, que dá vivacidade ao Jaburu. Políticos acharam curioso que, enquanto acompanhavam a votação da Câmara dos Deputados para abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, em 17 de abril, um pequeno Michel andava despretensiosamente com seu skate pelos corredores da residência oficial. Ele completou 8 anos no começo deste mês.

É no filho que Temer pensa na hora de comprar lembrancinhas em viagens – oficiais ou não. Quando está sem tempo, pede a algum assessor que o faça. Nas viagens com a família, um dos destinos comuns é a chácara dos antecedentes do peemedebista, em Tietê, no interior de São Paulo, onde no passado havia máquinas de beneficiamento de arroz e feijão. Estados Unidos também vira roteiro durante as férias do caçula. Mesmo aos 75 anos, Temer quer ser pai mais uma vez com a esposa Marcela. Ele tem outros quatro herdeiros de outras relações.

Revoltado com novos apelidos

A exposição da família é algo que tira o presidente do sério – ele detesta interferências na vida íntima. O que também tem revoltado Temer são os novos apelidos que ganhou – inclusive da presidente Dilma. Conspirador, traidor, desleal, usurpador de mandato, golpista. Antes do rompimento entre os dois, o então vice alimentava a troca de livros como forma de alongar um pouco mais a conversa com Dilma, que também é devoradora de obras. O último livro que ele sugeriu a leitura a presidente, há quatro meses, foi “Número Zero”, de Umberto Eco. O romance se baseia em escândalos de corrupção na Itália. Livros com temas históricos e políticos, aliás, costumam estar na cabeceira de Temer. Ele também já trocou sugestões de livros com o ex-ministro Nelson Jobim, com o senador Jader Barbalho, com o deputado Miro Teixeira. Esta é a maneira que o tímido presidente interino encontra para se aproximar nas relações interpessoais.

À noite e nos fins de semana Temer – ou Michel, como é chamado por políticos e amigos mais próximos – reserva momentos para leitura. Gosta de ler ao menos um livro por semana. A escrita também o atrai – além de ser autor de livro sobre Direito Constitucional referência para estudantes de Direito, também publicou obra com poemas. Temer gosta de recitar um deles por saber de cor – não sem antes enrubescer as bochechas e apresentar um sorriso discreto e vaidoso.

Lamentavelmente,
Tudo anda bem.
Por isso, andam mal
Os meus escritos.

“Navio Negreiro”, de Castro Alves também é um daqueles que Temer gosta de declamar. A literatura como forma de quebrar o gelo é um escape de um político que não costumar perguntar sobre a vida íntima de quem o cerca rotineiramente. Ele não gosta de interferir na vida das pessoas e, ao contar histórias, tem mania de começar as frases com: “Você sabe que...”.

Político que atua nas sombras

Educado, fino, comedido. É a descrição mais fácil de se encontrar do político que atua nas sombras, mas que não se deixa passar despercebido. Ainda que a formalidade seja seu forte, ele pode ser ríspido se achar que foi desrespeitado. Foi o que aconteceu certa vez em uma ligação que recebeu de Dilma, que falava em voz alta. O então vice desligou na cara da presidente, que retornou a ligação. Ele atendeu dizendo que o telefonema anterior deveria ter sido um engano, porque não deveria ser uma presidente a falar daquele jeito. E continuaram a conversa.

Também por telefone, Temer xingou Antonio Palocci, quando o petista era ministro na Casa Civil no primeiro mandato de Dilma. O vice não aceitou ser cobrado por uma postura do PMDB em votação no Congresso e mandou Palocci “tomar naquele lugar”. O peemedebista também travou embates históricos com políticos. Antônio Carlos Magalhães, já falecido, referendou o apelido de “mordomo de filme de terror” – que foi relembrado no fim do ano passado por Renan Calheiros, presidente do Senado, em mais um capítulo das repetidas crises entre ele e Temer.

O círculo de amizades políticas que o presidente mais preza – pelo fato de acreditar nunca ter sido traído - envolve os nomes de Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco. Tanto que os dois primeiros vão assumir posições-chave no Palácio do Planalto, de ministro da Casa Civil e ministro da Secretaria de Governo, respectivamente. Já Moreira Franco deve virar assessor especial responsável pelas parcerias-público-privadas, principalmente no que se refere a concessões e leilões.

Se Temer mantiver a rotina atual, às 20h vai encerrar as atividades no Palácio do Jaburu, que começam cedinho com os exercícios físicos. Sem dúvida, se depender dele, a grande piscina do local continuará intacta. A churrasqueira – que nunca foi usada – também. Até porque, em termos de carne, você já sabe. O quibe foi eleito.

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