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Meio Ambiente

Promessa de um Rio mais limpo após Olimpíada não será cumprida, dizem especialistas

Áudio 09:31
Agentes fazem a limpeza do rio Meriti, em Duque de Caxias, que deságua na Baía de Guanabara.
Agentes fazem a limpeza do rio Meriti, em Duque de Caxias, que deságua na Baía de Guanabara. YASUYOSHI CHIBA/AFP
Por: Daniella Franco
15 min

Poluição do ar, das águas da Baía de Guanabara... a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro colocam em destaque o estado calamitoso da cidade e o descaso das autoridades em relação às questões ambientais e à saúde da população, dos turistas e atletas. A ponto de especialistas entrevistados pela RFI Brasil serem céticos sobre a promessa do legado de uma cidade mais limpa após a realização da Olimpíada.

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Ao que tudo indica, nem o mar, nem o ar da capital fluminense terão uma melhor qualidade após os jogos, como prometeram as autoridades. Quando a candidatura do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos foi lançada, a meta era despoluir 80% da Baía de Guanabara até o início da competição. Mas, no fim de julho, faltando poucos dias para o início do evento, o governo estadual voltou atrás e disse que seriam necessários ao menos 25 anos para que o objetivo fosse atingido.

Essa atitude não surpreende o ecologista Sérgio Ricardo Verde, fundador do movimento Baía Viva. "Não é a primeira vez que as autoridades públicas fazem promessas que não são cumpridas em relação a esta questão. Na década de 90, foi implantado o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, com um prazo de 20 anos para despoluir o local. Passados 21 anos, várias obras não foram concluídas e a Baía de Guanabara continua recebendo, por dia, 18 mil litros de esgoto por segundo, além de 90 toneladas de lixo flutuante", ressalta o ativista.

O problema, segundo o biólogo brasileiro Mario Moscatelli, não é a falta de projetos ou de leis de proteção ambiental, mas a aplicação dos mesmos pelos governos. "No Brasil, nós temos uma legislação ambiental variadíssima nas esferas federal, estadual e municipal, mas a maioria das leis não é respeitada", salienta.

Para Moscatelli, a questão do imenso volume de esgoto não tratado que chega à Baía de Guanabara é um dos principais problemas enfrentados no local. Segundo ele, soma-se à falta de universalização de saneamento, a omissão de grande parte das prefeituras da região sobre o crescimento da malha urbana, que classifica como "desordenado" e que acaba despejando o esgoto e o lixo nos rios que deságuam na baía. "A degradação da Baía de Guanabara é fruto de uma cultura predatória, tanto da sociedade quanto do poder público, que se repete desde a colonização do Rio de Janeiro, no século 17, que é usar o recurso natural até que ele se esgote. Isso mostra que o Brasil do século 21 continua com a mesma mentalidade do Brasil Colônia", avalia.

Qualidade do ar também é questionada

Nessa semana, além da sujeira da Baía de Guanabara, a qualidade do ar do Rio entrou na mira de especialistas e ambientalistas. As partículas de poluição na atmosfera estão entre duas a três vezes acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde. O problema, especialmente causado pelos 2,7 milhões de veículos que circulam diariamente na capital fluminense, provoca entre 3.500 e 4 mil mortes todos os anos, enfatiza o patologista Paulo Saldiva, da Universidade Federal de São Paulo (USP). "O problema da poluição é que você é obrigada a respirá-la. A população não tem como escapar do problema", adverte.

Segundo o patologista, para os atletas, especialmente as provas que exigem mais consumo de oxigênio, o cansaço e a pressão arterial aumentam. Mas, para os moradores da cidade, os prejuízos são maiores. "Quem está diariamente exposto a esses níveis de poluição, tem maior probabilidade de desenvolver câncer de pulmão, pneumonia, infarto do miocárdio, além de, nas mulheres grávidas, poder provocar baixo peso dos bebês." Resumidamente, explica, todos os problemas que podem ser gerados pelo cigarro.

Para o especialista, melhorando a qualidade do ar para o nível que estabele a OMS, a população pode ganhar três anos a mais de vida. A solução, diz, é simples: reformar o transporte público para reduzir as emissões de gás carbônico.

A prefeitura do Rio garante que trabalha na reforma do sistema de transporte público para reduzir a poluição na cidade. Resta saber se essa promessa, a exemplo do que aconteceu sobre despoluição da Baía de Guanabara, será cumprida. Moscatelli não acredita nessa possibilidade: "Não vejo com otimismo o período após a Olimpíada. Se nem com a pressão da imprensa, com o tempo que tivemos para as obras e as fortunas que foram gastas, as autoridades públicas não se mobilizaram para cumprir aquilo que havia sido determinado, não serão 25 anos, 50 anos ou trilhões de dólares que vão mudar a postura de nossa classe política", conclui.

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