Rio 2016

Remoção de moradores perto de Parque Olímpico é destaque internacional

Vila Autódromo, terreno que foi desapropriado pela prefeitura do Rio de Janeiro.
Vila Autódromo, terreno que foi desapropriado pela prefeitura do Rio de Janeiro. Foto: RFI Brasil
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O conflito entre a prefeitura do Rio de Janeiro e moradores que se recusaram a deixar uma área desapropriada para servir aos Jogos Olímpicos ganhou destaque na imprensa internacional.

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Do enviado especial ao Rio de Janeiro

No terreno, que fica entre o terminal do transporte público BRT e a via de acesso à imprensa credenciada para entrada no Parque Olímpico da Barra, um conjunto de casas e pichações nos muros chamaram a atenção de jornalistas do mundo inteiro que vieram cobrir os Jogos. Eles se revezam para falar da transformação da Vila Autódromo e contar a história de uma desapropriação que foi parar na Justiça.

Três anos atrás, a prefeitura do Rio iniciou o programa para desocupar a área que fica próxima à lagoa de Jacarepaguá. A maioria das 650 famílias que habitavam o local aceitou as indenizações oferecidas pela prefeitura para se instalar em outro lugar. Segundo uma funcionária da assessoria do prefeito Eduardo Paes, que dá plantão no local mas pediu para não ser identificada, os valores das indenizações variaram de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões de reais, montante bem acima das benfeitorias feitas nas casas, um dos critérios na avaliação.

Mas um conjunto de 20 moradores não aceitou a proposta e decidiu entrar na justiça para garantir o direito de continuar vivendo no local. Eles receberam casas de alvenaria com dois quartos, sala, banheiro e cozinha e permaneceram na área que, 50 anos atrás, era um vila de pescadores.

“Eles aterrorizam quem ficou. Cortam água, luz, retiram a coleta do lixo. A vida ficou insuportável mesmo. Tem que ter muita disposição. Eles fazem terrorismo para a gente sair”, afirma Delmo de Oliveira, um dos remanescentes da antiga Vila Autódromo.

Encarregado de montagem industrial, ele teve sua loja de produtos para metalurgia destruída. Em troca, recebeu uma indenização de R$ 732 mil, mas comprou uma briga com a prefeitura após ter tido sua casa destruída. “Eu não quero e não tenho interesse em sair daqui. Legalmente, eles não têm como me tirar”, afirma.

Delmo de Oliveira na frente do imóvel remanescente na Vila Autódromo e que não pode ser derrubado pela prefeitura.
Delmo de Oliveira na frente do imóvel remanescente na Vila Autódromo e que não pode ser derrubado pela prefeitura. Foto: RFI Brasil

Delmo  decidiu construir uma outra moradia no terceiro andar de uma construção ainda inacabada. No andar de baixo moram seu filho, a nora e o neto de três anos. Ele conseguiu um mandado de segurança e evitou a destruição. A prefeitura, diz, está impedida de tocar no imóvel. Ele lamenta não ter conseguido convencer os outros 3 mil moradores a resistir.

“Eles usaram um método intimidador, de fazer as pessoas aceitarem na base da ameaça. Muitos aceitaram pelo medo”, afirma. “Eu não consegui convencer os outros moradores a não sair. É o tempo todo essa pressão. Tem funcionários da prefeitura noite e dia aqui.” Delmo tem quatro processos contra a prefeitura, espera receber a indenização por sua casa destruída e ainda permanecer no local.

“Eu quero mostrar para todas as comunidades que se a gente não quiser, eles não podem remover a gente”, diz. Nas casas construídas pela prefeitura aos moradores que não aceitaram as indenizações, faixas na fachada indicam que o local também tem um “museu da remoção”. Obras de arte no jardim lembram alguns objetos que fizeram parte da antiga Vila Autódromo.

Moradores colocaram no jardim das casas obras feitas com objetos de ex-habitantes da Vila Autódriomo.
Moradores colocaram no jardim das casas obras feitas com objetos de ex-habitantes da Vila Autódriomo. Foto: RFI Brasil

A pequena área urbanizada convive com um espaço que foi utilizado como estacionamento para veículos de transporte oficial da Rio 2016. A funcionária da prefeitura que permanece no local para "dar assistência aos moradores" também organiza a pintura e a retirada das pichações. Os muros são diariamente pichados com críticas aos Jogos e ao governo local.

Delmo de Oliveira pretende encaminhar ao Comitê Olímpico Internacional uma sugestão: que as próximas cidades candidatas a sediar os Jogos sejam obrigadas a respeitar as comunidades locais.

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