Resenha da imprensa

Batalha parece perdida para Dilma, diz imprensa europeia

A presidente afastada Dilma Rousseff apresenta sua defesa no julgamento do impeachment no Senado Federal.
A presidente afastada Dilma Rousseff apresenta sua defesa no julgamento do impeachment no Senado Federal. REUTERS/Ueslei Marcelino

Rádios, canais de televisão e jornais europeus acompanham com correspondentes em Brasília o quarto dia do julgamento do impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff, no Senado Federal. A imprensa do continente destaca que o futuro da chefe de Estado já está traçado e lembra que o escândalo da Petrobras pode pesar mais para o afastamento do que os supostos crimes fiscais pelos quais ela está sendo julgada.

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A rádio France Info entrevistou na manhã desta segunda-feira (29) Armelle Enders, especialista em história política do Brasil. Ela disse que o julgamento de Dilma no Senado é “uma farsa, um assalto ao poder". A especialista explica que o presidente interino, Michel Temer, deve ficar no lugar de Dilma no Planalto. Porém, 65% dos brasileiros não confiam no peemedebista, ressalta a historiadora.

"Ele foi copiosamente vaiado no Maracanã, na abertura dos Jogos Olímpicos, e como foi eleito na chapa de Dilma, esteve associado às decisões do governo nos últimos seis anos, o que configura a corresponsabilidade na situação atual", opina a historiadora em entrevista à rádio francesa. Armelle Enders destaca ainda que "60% dos senadores que vão condenar Dilma são alvo de processos judiciais, o que não é o caso da presidente afastada".

A reportagem segue a mesma linha do editorial publicado pelo jornal Le Monde na edição que chegou às bancas na sexta-feira (26). No texto, intitulado "A triste ironia da queda de Dilma Rousseff", o vespertino ironiza ao afirmar que o impeachment da chefe de Estado "não entrará para a história como o episódio mais glorioso da jovem democracia brasileira". Le Monde explica o processo de impeachment, lembra que muitos dos que julgam Dilma também são acusados de corrupção e sentencia: "Se não se trata de um golpe de Estado, foi, pelo menos, uma enganação."

Também em editorial, o jornal católico La Croix afirma que "a batalha parece perdida para Dilma, acusada de maquiar as contas do governo e de assinar decretos de despesas que não estavam previstas, sem a devida autorização do Congresso".

"Se por um lado Dilma pede a seus apoiadores para manter a esperança, por outro lado ela parece bem isolada", escreve La Croix. "Incluindo em seu próprio campo, já que a direção do Partido dos Trabalhadores (PT) rejeitou a proposta que ela fez de organizar um plebiscito sobre eleições antecipadas, caso ela não seja destituída", ressalta do diário. Baseado em informações de especialistas, o jornal afirma que a defesa da presidente afastada no Senado "será mais um discurso à nação para defender sua imagem" do que uma argumentação dirigida aos parlamentares.

"Má comunicadora"

O jornal britânico The Guardian, em sua edição de domingo (28), diz que Dilma chegou a ter aprovação de 92% da população, mas que, sendo uma má comunicadora em uma situação de declínio econômico, acabou se tornando profundamente impopular, com índices de aprovação ao redor de 10%.

O jornal também lembra que muitos dos aliados de Dilma, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estão implicados no caso de corrupção da Petrobras. “Enquanto ex-ministra da Energia e líder de seu partido, dizem os críticos, Rousseff deveria saber o que estava acontecendo”, afirma o Guardian, lembrando que mesmo assim “ela não foi acusada” pelo caso.

O jornal português Público desta segunda-feira diz que o “último combate da ‘guerreira’ Dilma é pela sua biografia política”. Para a publicação, a presidente subestimou o escândalo de corrupção na Petrobras: “Talvez Dilma pensasse que conseguiria governar ignorando o terremoto político provocado pelas investigações da Lava Jato, que acabariam por não deixar pedra sobre pedra no sistema político brasileiro.”

O diário português também lembra que Dilma foi “até presidente do Conselho de Administração da petrolífera estatal”, mas que “escapava a todas as referências de luvas e “propinas”.

Já o espanhol El País estranha a falta de movimentos contra e pró-impeachment nas ruas e diz que isso seria sintoma de que a partida já está definida. “Os jornais também já preferem discutir as medidas que tomará Michel Temer”, diz El País.

Para o diário espanhol, a presença de Dilma para responder a perguntas dos senadores será “estranha e incomum, já que Rousseff se caracterizou, durante seu mandato, por ser uma pessoa fechada, pouco dada a conversar com senadores e deputados”.

A conclusão do El País é de que, nesta reta final do julgamento, “os argumentos já não importam e esta decisão é mais política do que jurídica”.

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