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"Falta ainda uma estratégia clara para o Brasil voltar a crescer"

Áudio 04:55
"Se o governo não for bem sucedido nos próximos meses é o futuro político dos atuais representantes que pode se transformar em passado".
"Se o governo não for bem sucedido nos próximos meses é o futuro político dos atuais representantes que pode se transformar em passado". REUTERS/Ueslei Marcelino

As eleições municipais brasileiras, com a derrota acachapante do lulopetismo e aliados, não resolveu os problemas do país. Mas abriu uma perspectiva mais positiva. Por enquanto, o populismo irresponsável – da esquerda como da direita, parece não convencer mais a maioria dos cidadãos. Claro, estamos muito longe do paraíso dos dirigentes preocupados mormente com o bem público e eleitores que rechaçam conscientemente as promessas demagógicas. No entanto, as chances aumentaram de consertar o estrago de anos de corrupção e políticas insustentáveis. A cidadania parece disposta a aceitar alguns sacrifícios com a condição de que haja resultados tangíveis.  

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O novo governo sabe que terá de mostrar rapidamente que pode frear a queda ladeira abaixo. Mas isto não basta: ele só tem dois anos, até a próxima eleição, para apontar saídas viáveis e aprovar as decisões necessárias para sair do poço.
Acabou o papo. Agora é pão, pão queijo, queijo: reformas das contas públicas, da Previdência, da legislação eleitoral, do código do trabalho e por aí vai.... E tudo isso relançando o investimento, a competitividade e o crescimento econômico. Vai ter que pisar nos calos de muita gente. Nada fácil quando a grande maioria dos representantes do povo ainda estão agarrados nas velhas receitas do passado.

Um otimismo desconfiado é possível. É muito difícil frear a Lava Jato. Apesar de algumas exaltações aqui e acolá, a luta contra a corrupção e a moralização da vida pública estão bem encaminhadas. Quanto à possibilidade de evitar um impasse entre o governo e um Congresso ainda dominado pelo fisiologismo, a melhor chance é o instinto de sobrevivência de Suas Excelências.

Se o governo não for bem sucedido nos próximos meses é o futuro político dos atuais representantes que pode se transformar em passado – vide a batelada de prefeitos e vereadores do PT e partidos aliados que perderam o emprego.

Brasil viveu na ilusão de que é grande e rico em recursos naturais

O problema é que reverter a queda é o de menos. Falta ainda uma estratégia clara para voltar a crescer e adaptar a sociedade e a economia brasileira aos novos ventos da economia mundial. Durante décadas – quiçá séculos – o Brasil viveu na ilusão de que era tão grande e tão rico em recursos naturais que podia se virar sem pensar no resto do mundo.

Bastava exportar minério e comida, e fechar o mercado nacional à concorrência estrangeira. Quando os preços das matérias primas estavam na lua, dava para garantir polpudos benefícios aos dirigentes econômicos e políticos, e subsídios aos trabalhadores organizados.
Quando caiam, a renda dos dirigentes baixava um pouco e o povão tinha que amargar austeridade ou inflação. Essa gangorra acabou.

O Primeiro Mundo – nosso principal mercado – está vivendo uma nova revolução industrial, baseada nas novas tecnologias da informação e comunicação, que está até tornando obsoletas as tradicionais cadeias produtivas da produção de massa.

A globalização dessas cadeias está se revertendo e sendo substituída por uma nova globalização das redes conectadas e dos ecossistemas de serviços embutidos nos produtos. Isso significa que os maiores mercados do mundo estão precisando cada vez menos de nossas matérias primas.

Os preços internacionais do minério e da comida vão continuar estagnados durante muito tempo. Pior ainda: os serviços no Brasil não tem condições de competir e a indústria, fechada no seu “nacional-desenvolvimentismo”, não quis se integrar nas grandes cadeias de valor global industriais.

Hoje a ficha está caindo, mas já é tarde: essas cadeias já estão em crise e já se organizaram em torno de poucos polos importantes – Europa, Estados Unidos, China e Japão.
Estamos ficando rapidamente sem opções.

Para crescer de novo, vamos ter que escancarar a economia, aceitar a competição interna e externa, acelerar a implementação de uma educação de qualidade, reformar inteiramente a burocracia, garantir une estado de direito previsível. Como mínimo.

Será possível com instituições políticas em frangalhos? Uma coisa é certa: nem os vizinhos, nem o resto do mundo não estão esperando pelo Brasil.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica para a RFI às segundas-feiras.

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