"Novas delações da Odebrecht podem provocar explosão política", diz especialista

Frédéric Louault, vice-presidente do Observatório Político da América Latina e Caribe
Frédéric Louault, vice-presidente do Observatório Político da América Latina e Caribe Augusto Pinheiro/RFI
Texto por: Augusto Pinheiro
6 min

O Observatório Político da América Latina e Caribe (Opalc), em Paris, lançou nesta quinta-feira (26) o relatório "Ano Político 2016 na América Latina" com uma conferência no Centro de Pesquisas Internacionais (Ceri) do Instituto de Estudos Políticos de Paris, conhecido como Sciences Po.

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O Brasil e a Colômbia foram o foco da mesa-redonda composta por Alain Dieckhhoff (diretor do Ceri), Olivier Dabène (presidente do Opalc), Gaspard Estrada (diretor-executivo do Opalc), Frédéric Louault (vice-presidente do Opalc), Erica Guevara (professora da Universidade Paris 8) e Damien Larrouqué (professor da Universidade Paris 2). O relatório, em francês, pode ser baixado gratuitamente em PDF no site do Opalc.

Em sua intervenção, especificamente sobre a situação brasileira, Louault previu uma "explosão política" este ano no Brasil devido a novas revelações da operação Lava Jato que atingem o governo de Michel Temer.

"Eu me refiro à delação de um executivo da Odebrecht que vazou em novembro e envolve Temer, o presidente do Senado, Renan Calheiros, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, além de vários ministros e parlamentares. Além disso, há as delações de 77 outros executivos da Odebrecht. Acho que, até o mês de março, quando os nomes vierem oficialmente a público, a análise desses depoimentos provocará uma nova fase de desestabilização política."

Louault, que é professor da Universidade Livre de Bruxelas, também demonstrou receio com o surgimento do que chamou de "outsiders" no cenário político brasileiro, figuras que se aproveitariam do clima de instabilidade no país.

Conferência de lançamento do relatório "Ano Político 2016 na América Latina"
Conferência de lançamento do relatório "Ano Político 2016 na América Latina" Augusto Pinheiro/RFI

"Em vários países, em contextos de crise de representação política, há essa facilitação do surgimento de novos líderes carismáticos, que vão usar a demagogia e a propaganda para captar a desconfiança e a insatisfação do eleitorado. Nos anos 1990, houve o neopopulismo, com Carlos Menem na Argentina, Alberto Fujimori no Peru ou até mesmo Fernando Collor de Mello no Brasil", explicou à RFI Brasil após a conferência.

Segundo ele, "o Brasil está enfrentando esse desafio de resistir à aparição e à confirmação eleitoral desses outsiders". "Nas eleições municipais de 2016 houve um sinal grave desse populismo, com a eleição do Crivella no Rio e do Alexandre Kalil em Belo Horizonte. Para a fase preparatória das eleições presidenciais de 2018, vamos ter que seguir de perto essa possível aparição de novas figuras com uma postura de ruptura com o establishment político. Isso não acontece só no Brasil, é uma tendência mundial. Veja o Donald Trump nos EUA, a Frente Nacional (partido de extrema-direita) na França, os populistas na Europa. É um sintoma perigoso da fragilização da democracia na América Latina e no mundo."

Desafios do PT

Outro ponto abordado pelo brasilianista foram os desafios do Partido dos Trabalhadores, que, segundo ele, se encontra na pior crise da sua história. "Eu diria que o PT vai enfrentar ou já começou a enfrentar o maior desafio político desde a sua criação em 1980. O partido já sofreu derrotas eleitorais, escândalos como o Mensalão, dificuldades a nível local. Mas atualmente há uma conjunção de dificuldades que fazem com que o PT tenha que repensar a organização interna, a política de alianças e o posicionamento ideológico", afirma.

O professor aponta a organização do quadro de dirigentes do partido como outra questão a ser enfrentada. E questiona: "Será que o Lula pode ser o eterno presidente do partido? Será que a geração dos anos 80, dos fundadores do PT, ainda tem condição de seguir dirigindo o partido?".

Mas, para ele, o principal desafio é a reconstrução do PT por meio do poder local. "O partido se construiu na cidade, nas periferias das grandes cidades e, depois, se desenraizou, perdeu as raízes locais, perdeu militantes, não soube atrair militantes jovens. Ele tem que construir essa nova conexão com a população jovem e com novos eleitores em nível local. Os resultados das eleições municipais de 2016 são sintomáticos da desconexão entre o PT e os eleitores em nível local. Esse é o fator decisivo, mais importante do que o impeachment que eles sofreram."

Mapa eleitoral da Colômbia

Na sua intervenção sobre a Colômbia, a professora Erica Guevara fez uma análise da geografia eleitoral do referendo de ratificação do acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), cujo "não" ganhou com 50,2% dos votos válidos. A diferença do "sim" foi de menos de 60 mil votos.

Esse acordo requereu quatro anos de difíceis negociações entre o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e o líder das Farc), Rodrigo Lodoño. Guevara, auxiliada por um mapa do país, explicou que houve diversos fatores polarizadores. "Os negros e indígenas votaram sim, enquanto os brancos votaram não; as cidades grandes votaram sim, enquanto as médias votaram não; os mais pobres votaram sim, e os mais ricos, não."

A intervenção de Guevara não explicou os motivos por trás dessas decisões, mas quis, principalmente, evidenciar a nova colaboração do Opalc com o Centro de Cartografia da Sciences Po, que participou pela primeira vez do relatório, com mapas explicativos.

O relatório está dividido em quatro partes: "América Latina na Atualidade", "América Latina e a História", "América Latina nas Urnas" e "América Latina em Perspectiva" e conta com análises de 13 autores.

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