Carne Fraca: Brasil teme efeitos nefastos para um setor estratégico de exportações

Membro da Vigilância Sanitária mede temperatura da carne no supermercado
Membro da Vigilância Sanitária mede temperatura da carne no supermercado Reuters

A decisão de vários países de suspender as importações de carne brasileira e o temor por parte do governo brasileiro de uma queda brutal nas exportações, são destaque na imprensa francesa desta quarta-feira (22).

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O escândalo da carne estragada mergulha o Brasil na crise, afirma o jornal econômico Les Echos. As autoridades estão preocupadas com a decisão da China e de Hong Kong, dois dos maiores compradores de carne brasileira, de suspender as importações.

Les Echos comenta uma declaração do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que considerou o caso "um desastre" para o país ao avaliar as consequências das revelações de um esquema de fraude envolvendo inspetores do governo e frigoríficos acusados de usarem até produtos químicos para colocar no mercado carne avariada.

Além da China e Hong Kong, Les Echos lembra também que a União Europeia e o Chile, em menor proporção, também decidiram restringir a compra da carne produzida no Brasil. No entanto, o ministro Maggi conseguiu o que Les Echos considera uma "pequena vitória" ao fazer com que a Coreia do Sul retomasse as importações, que haviam sido suspensas, de produtos avícolas da empresa BRF, envolvida no escândalo. Mas o controle sanitário nos portos sul-coreanos será reforçado, ressalta o jornal.

Governo busca transparência

O governo tenta ser transparente. O ministro da Agricultura insiste que o incidente com a carne estaria restrito a alguns funcionários já afastados de suas funções, que foram suspensas as licenças de exportações dos frigoríficos envolvidos na fraude, e que o sistema de fiscalização é "robusto".

Mas o temor dos brasileiros é de que haja uma reação em cascata de muitos países, apesar da ofensiva diplomática do governo, que incluiu o convite do presidente Michel Temer a um grupo de embaixadores para jantar em uma churrascaria de Brasília.

Especialistas ouvidos pelo jornal Les Echos garantem que o escândalo da operação Carne Franca vai deixar muitos vestígios. O vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira, Pedro de Camargo Neto, por exemplo, admitiu que a situação atual “é difícil”.

Polícia Federal acusada de "excesso de zelo"

O diário econômico francês aponta as críticas das autoridades brasileiras à atuação da Polícia Federal, acusada de "excesso de zelo". Os problemas foram verificados em frigoríficos que representam 0,5% da produção, mas todo o setor foi afetado e agora vive um período de incertezas.

A grande preocupação do ministro da Agricultura é com relação ao impacto de um segmento que emprega mais de 6 milhões de pessoas. Uma queda de 10% das exportações, por exemplo, poderia provocar a demissão de 400 mil pessoas em um país que tenta se recuperar de uma grave recessão, escreve o jornal.

Les Echos também destaca que os consumidores brasileiros não parecem ter ficado tão assustados, mesmo com as revelações de que alguns frigoríficos usaram até ácido para disfarçar o aspecto e a cor da carne. Os supermercados não registram até o momento uma queda expressiva nas vendas, mas os compradores já notaram uma queda nos preços, diz Les Echos.

Escândalo mais grave do que o da Petrobras

Outro jornal, Le Figaro, também destaca que o escândalo da Operação Carne fraca ameaça as exportações de um setor estratégico do país. Depois do petróleo, os gigantes do setor bovino estão implicados em fraudes, diz o subtítulo da reportagem.

A decisão de grandes países importadores de suspender a compra da carne brasileira é um golpe duro para um dos pilares das exportações do Brasil, lembra o jornal francês. A venda de carne bovina representa 17% das exportações do setor agroalimentar. O país é o segundo maior exportador mundial e a carne brasileira é vendida para mais de 150 países.

Le Figaro lembra de algumas irregularidades constadas pela operação da Polícia federal, como a venda de produtos vencidos, injeção de agentes químicos para melhorar a apresentação da carne e até a utilização de cabeça de porco na fabricação de salsichas. No total, são 22 empresas envolvidas, entre elas as gigantes do setor como BRF Brasil e JBS, donas das marcas mais vendidas do país.

Consequências piores do que na operação Lava-Jato

Para avaliar o impacto do escândalo, Le Figaro cita a declaração do secretário-geral da presidência, Moreira Franco, de que o problema no setor alimentício tem consequências econômicas, financeiras e para os empregos muito mais graves do que na área de petróleo e gás. A referência é ao escândalo de corrupção envolvendo a Operação Lava Jato e a Petrobras, lembra o jornal francês.

O receio das autoridades brasileiras é a perda de parte do mercado na União europeia, no momento em que o Mercosul negocia laboriosamente um acordo de livre comércio com o bloco europeu. "A França e a Irlanda lutam incansavelmente contra a carne brasileira", disse Moreira Franco, citado pelo jornal Le Figaro.

 

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