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“Tudo indica que Bolsonaro terá governo de milícias”, afirma professora da USP

Áudio 06:58
Cibele Rizek participou em Paris de conferência sobre violência em São Paulo e PCC
Cibele Rizek participou em Paris de conferência sobre violência em São Paulo e PCC RFI
Por: Marcos Lúcio Fernandes
12 min

A violência foi um dos temas mais debatidos durante a campanha eleitoral para a presidência do Brasil em 2018. Todos os candidatos propuseram soluções para o problema crescente no país – e venceu aquele que tinha em seu programa a “flexibilização do porte de armas”. A professora de Sociologia Urbana do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP, Cibele Rizek, e docente convidada do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento de Paris, participa nesta sexta-feira (19) da conferência “Sociabilidades e violências: a paz partilhada no Estado de São Paulo”, na Maison de Sciences de L’homme. Em entrevista à RFI, a especialista disse que a presença do Primeiro Comando da Capital, o PCC, foi responsável pela queda da taxa de homicídios em São Paulo, demonstrando que a situação é mais complexa do que afirmam os governantes.

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Para ouvir a entrevista na íntegra, clique na foto acima.

Com relação ao novo governo de Jair Bolsonaro, Cibele Rizek alerta para um possível aumento da violência. “Se a gente pega alguns analistas brasileiros pós-eleição, percebemos que parece estar se desenhando no Brasil um governo de milícias. Eu acredito que haverá um reforço da ação e da violência policial, o que pode fazer com que o ‘pacto’ [com o PCC] se rompa. Isso pode elevar o número de homicídios enormemente”, alerta.

“O que alguns analistas indicam é que esse será um governo onde as pessoas terão permissão para matar. O slogan e o símbolo do Bolsonaro, com uma arma o tempo todo, aponta nessa direção”, afirma Cibele Rizek. “Então você tem duas ramificações da violência. A policial, que provavelmente vai aumentar, contra todos os supostos inimigos, e a privada, que também pode crescer, como o próprio Bolsonaro anuncia, dizendo que as mulheres podem se defender da violência doméstica se estiverem armadas. Ou seja, matando ou ameaçando quem estiver atacando. É isso que sugere a possibilidade de um governo de milícias, com a violência privada explodindo em todo canto.”

A pesquisadora aponta que houve um aumento nas ações da Taurus Armas quando Bolsonaro começou a ganhar popularidade durante a campanha eleitoral. “Existe muito visivelmente um vínculo entre as empresas que produzem armas e a vitória de Bolsonaro”, analisa.

PCC está por trás de diminuição de homicídios

De acordo com Cibele Rizek, houve uma diminuição de cerca de 73% dos assassinatos a partir dos anos 2000 na cidade de São Paulo. Isso ocorreu “a partir, exatamente, de uma hegemonia do PCC”, afirma a estudiosa. “Na verdade, se a gente comparar com o Rio, a diferença é que [na capital paulista] nós temos somente uma facção criminal, e não três, e ela se territorializa de uma maneira muito diferente das facções do Rio.”

Ela lembra que o PCC nasceu nos anos 1990, com o massacre do Carandiru. Mas, saindo das prisões, a facção “se enraizou nos bairros” – e é nesse momento que ocorreu o que Cibele Rizek e outros pesquisadores chamam de “pacificação partilhada”. “O PCC pacifica porque morte e violência não é bom para ninguém, muito menos para os negócios ilegais. Existe inclusive a construção de um código moral da violência, como aponta Gabriel Feltran”, declara, em referência ao autor do livro “Irmãos: Uma história do PCC”. “É uma sociedade secreta, de natureza criminosa, sem dúvida, mas com seu próprio código moral.”

Para Cibele Rizek, o PCC não é resultado de uma falta de ação do Estado, mas funciona como um “reforço” a certos serviços públicos. “Há uma capilaridade do PCC. Por exemplo, eles apoiam o futebol de Várzea. Eles estão muito próximos de todo o transporte da cidade clandestina de São Paulo. Eles fazem mediações muito importantes com relação à vida da prisão. Toda a violência que os familiares dos presos sofrem, eles acompanham e têm advogados”, ressalta a professora da USP.

O PCC atinge atualmente uma parte dos países da América Latina, África, Europa e até Oriente Médio. E, apesar do termo “pacificação partilhada” sugerir um acordo, Cibele aponta que existe ainda uma forte oposição às forças da ordem. E, como o Brasil é o terceiro país no mundo em número de prisioneiros que aguardam julgamento na prisão, isso alimenta ainda mais o estômago da facção criminosa.

Veja o vídeo da entrevista abaixo:

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