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Museus comunitários de favelas brasileiras são tema de palestra em Paris

Áudio 07:04
A historiadora Gleyce Kelly
A historiadora Gleyce Kelly RFI
Por: Paloma Varón
12 min

Gleyce Heitor é museóloga e doutoranda em História pela PUC-RJ. Ela faz parte de seu doutorado em Paris, onde profere a palestra "Museus comunitários no Brasil: mecanismos de luta por moradia, território e dignidade", na quarta-feira (8). O evento é promovido pelo Grupo de Reflexão sobre o Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHHSS, na sigla em francês).

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Gleyce tem mestrado em Museologia e Patrimônio e experiência com projetos de mediação cultural, educação e programas públicos em museus, exposições e demais instituições de arte. No seu doutorado, ela pesquisa duas experiências de museus comunitários: o Museu da Beira da Linha do Coque, em Recife, e o Museu das Remoções, na Vila Autódromo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

“Neste panorama, eu vou apresentar como os moradores de periferia, especialmente os de favelas em Recife e no Rio de Janeiro, criaram museus comunitários para contar as suas histórias, as histórias de ocupação destas favelas e também elaborar narrativas e contranarrativas frente ao modo como essas favelas são representadas – de maneira geralmente negativa, estereotipada, como espaços de violências, de ausências e precariedades – pelo senso comum e pela mídia hegemônica”, explica.

Museologia social

Ela conta que os museus comunitários fazem parte de uma área de estudos chamada museologia social.

“A museologia social é uma ética, uma filosofia, um modo de compreender os museus que tem uma dimensão internacional, mas encontra bastante ressonância no Brasil. E os museus comunitários, principalmente no Brasil, estão ligados ao empenho de diferentes grupos sociais: indígenas, quilombolas, pessoas que moram em favelas e em contextos urbanos empobrecidos e que foram historicamente excluídas das narrativas dos museus oficiais”, afirma.

“Os museus comunitários têm como característica um processo de autodeterminação, um modo de a comunidade entender, contar, reinterpretar a sua história, mas também tem um forte trabalho na produção de redes, de unidade dentro destas comunidades. São museus que têm como interesse mostrar que a favela tem história, que estas pessoas têm história e como estas histórias são marcadas pela luta pela permanência no território e por construir estes espaços com as próprias mãos, sem o apoio do governo”, diz ela sobre os objetos de seu estudo.

“São museus marcados por este trabalho de coletividade e que buscam contar a história deste coletivo no intuito de assegurar direitos”, resume.

Escola do Louvre

Em 2016, ela ganhou uma bolsa que a trouxe para estudar na Escola do Louvre. Sobre a experiência em terras francesas e a relação com a sua vivência em museus brasileiros, Gleyce faz questão de distinguir os contextos.

“Eu não só estudei na Escola do Louvre como fui estagiária da diretoria de mediação do Museu do Louvre e penso que são experiências muito distintas. O Louvre foi construído para ser um Museu de grande público. Ele é alvo de políticas que buscam mantê-lo como um espaço incontornável de Paris”, analisa.

No Brasil, ela conta que trabalhou em museus de diferentes portes, como o CCBB-RJ, o Museu de Arte do Rio, o Museu Murillo La Greca, “que é menor, mas é bem relevante para cena artística local, e eu diria que estes museus têm as suas dinâmicas próprias”.

“O museu Murillo La Greca não alcança os números de visitação do CCBB-RJ, mas ele é superimportante para a formação dos artistas locais. O CCBB é superimportante para a formação cultural de quem está no centro do Rio de Janeiro. Assim como o Museu Nacional era um museu basilar para quem tinha o interesse em compreender a história da ciência, da antropologia, uma certa história da formação do Brasil e que tinha e continua tendo um papel importante na formação de grupos escolares, de pesquisadores e de cientistas”, reflete.

“Eu acho que os museus têm os seus visitantes, têm as suas dinâmicas. Não é porque não têm filas que os museus são relegados ao abandono ou que não são visitados: tem sempre algum trabalho feito ali, mesmo quando a gente não está vendo”, finaliza.

 

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