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Roberto Azevêdo diz que renuncia à direção da OMC por razões familiares

A renúncia do diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, ocorre em um contexto de grandes dificuldades econômicas devido à pandemia de coronavírus e enfraquecimento dos fóruns multilaterais.
A renúncia do diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, ocorre em um contexto de grandes dificuldades econômicas devido à pandemia de coronavírus e enfraquecimento dos fóruns multilaterais. AFP
Texto por: RFI
5 min

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o brasileiro Roberto Azevêdo, informou nesta quinta-feira (14) que irá abandonar o cargo no dia 30 de agosto, um ano antes de completar seu segundo mandato à frente da organização. A renúncia de Azevêdo, antecipada pelo jornal "Valor Econômico", caiu como uma bomba no momento em que a pandemia de coronavírus desestabiliza a economia mundial. Ele alegou que deixa o cargo por razões familiares e que não tem ambições políticas.

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"É uma decisão pessoal, uma decisão familiar, e estou convencido que ela será útil aos interesses desta organização", declarou Azevêdo durante uma reunião por videconferência com todos os membros da organização. Azevêdo é casado com a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo. Nos últimos meses, ela agradou a ala mais radical do bolsonarismo ao adotar um discurso de ataques contra a Venezuela, Cuba e também questionar a atuação de ativistas de direitos humanos, destacou o jornalista Jamil Chade em seu blogue.

Mais cedo, o jornal "Valor Econômico" tinha antecipado alguns trechos do discurso de renúncia do diplomata. "Com esta decisão, evito que a organização fique presa a dois processos simultâneos: a preparação da próxima reunião ministerial e o processo de substituição do diretor-geral". O brasileiro disse estar convencido de que sua saída neste momento "ajudará a OMC a escolher seu novo caminho".

A saída prematura do brasileiro ocorre em um momento em que a economia mundial sofre o mais duro golpe desde a Grande Depressão da década de 1930. O comércio internacional é fortemente afetado pela pandemia do coronavírus, que fez afundar a produção industrial, agrícola e o comércio.

A demissão do chefe da OMC "chega em um momento muito ruim para a instituição", estima o diretor do Centro de Estudos Prospectivos e Informações Internacionais (CEPII), Sébastien Jean. "O sistema comercial está profundamente desestabilizado tanto pelas tensões anteriores, incluindo as duras críticas do presidente americano, Donald Trump, as múltiplas violações dos acordos, a guerra comercial EUA-China e a paralisia do órgão de apelação, e por medidas tomadas em reação à crise, incluindo restrições às exportações", disse ele à agência AFP.

Resta saber quem poderia assumir a OMC. Em Genebra, os olhos estão voltados para a África, segundo várias fontes diplomáticas. "Existe um consenso (...) para que a sucessão não retorne a uma grande potência econômica e não possa ser chinesa nem americana", levando em conta a guerra comercial que as duas potências estão travando, indica uma fonte diplomática à AFP.

Azevêdo venceu disputas importantes para o Brasil

Diplomata de carreira, Azevêdo iniciou seu segundo mandato de quatro anos em setembro de 2017. Ele assumiu o comando do órgão em 2013, sucedendo ao francês Pascal Lamy. Antes de se tornar chefe da OMC, era, desde 2008, o representante permanente do Brasil nessa organização, onde conquistou a reputação de bom negociador. Ele foi chefe de delegação em importantes disputas vencidas pelo Brasil, como no caso de subsídios ao algodão contra os Estados Unidos e subsídios à exportação de açúcar contra a União Europeia.

Durante sua primeira candidatura, ele também enfatizou que sua eleição iria desbloquear as negociações comerciais que estavam paralisadas há anos. No final de 2013, os países membros da OMC chegaram a um acordo histórico em Bali sobre facilitação do comércio e ampliaram o escopo do acordo de tecnologia da informação dois anos depois.

Sob pressão americana

Desde então, os países têm lutado para assinar novos acordos e nem conseguem encontrar um consenso para proibir subsídios que incentivam a pesca excessiva. A conclusão de um acordo sobre esse tema fracassou na 11ª Reunião Ministerial da OMC em Buenos Aires, no final de 2017, e era uma das principais expectativas da 12ª Reunião Ministerial, que seria realizada de 8 a 11 de junho em Nur-Sultan, no Cazaquistão, mas acabou sendo adiada para meados de 2021 devido à pandemia de Covid-19.

Apesar das tentativas de diálogo, Azevêdo não conseguiu impedir os Estados Unidos de ignorar as regras da OMC. O órgão de apelação do Órgão de Resolução de Litígios (DSB) da OMC, cuja nomeação de juízes é bloqueada por Washington, na verdade não está mais operacional desde 11 de dezembro passado, por falta de magistrados suficientes.

Desde a chegada de Trump à Casa Branca, Azevêdo assistiu, sem poder fazer grande coisa, às hostilidades comerciais entre os Estados Unidos, a China e a União Europeia. Atualmente, os Estados Unidos pedem à OMC que reveja o status da China, que, segundo Washington, está usurpando de sua posição de "país em desenvolvimento" na organização, a fim de obter vantagens econômicas. Também sob a pressão de Trump, o Brasil abriu mão de seu status de emergente na OMC desde o ano passado.

Azevêdo apoiou aproximação do Brasil com OCDE

Na visita que fez a Washington em março de 2019, Bolsonaro cedeu a essa exigência de Trump para obter o apoio do americano à entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE), o clube dos países ricos. Na época, vários especialistas consideraram a decisão de Bolsonaro arriscada. Ao mudar para o status de país desenvolvido, o Brasil perdeu poder de barganha nas negociações sobre subsídios e tarifas de exportação. Na época, Azevêdo defendeu a aproximação do Brasil com a OCDE e destacou que a organização era importante não só por dar um selo de qualidade ao grupo que a integra, mas por ter o papel de definir a agenda mundial do comércio.

Em janeiro deste ano, os Estados Unidos informaram aos demais países do clube dos países ricos o seu apoio à entrada do Brasil na OCDE. Porém, muitos analistas apontaram que o processo de adesão à OCDE é longo, pode durar vários anos, e não tem garantias de dar certo. Para ser definitivamente aceito, o Brasil tem de obedecer a vários critérios de admissibilidade, que envolvem desde a prestação de bons serviços públicos de saúde e educação até questões de transparência e combate à corrupção.

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