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Lula teme "genocídio" no Brasil com oposição de Bolsonaro à quarentena contra coronavírus

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu uma entrevista remota à agência de notícias AFP na quinta-feira (14) e criticou a política do governo Bolsonaro de combate à Covid-19.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu uma entrevista remota à agência de notícias AFP na quinta-feira (14) e criticou a política do governo Bolsonaro de combate à Covid-19. AFP
Texto por: RFI
4 min

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu uma entrevista remota à agência de notícias AFP na quinta-feira (14). Ele declarou que teme um "genocídio" no Brasil devido a forte oposição de Jair Bolsonaro às medidas de quarentena contra o coronavírus. Lula também afirmou ser favorável à destituição do presidente de extrema direita.

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Lula mostrou preocupação com o papel preponderante dos militares, que, segundo ele, "têm mais influência no atual governo" do que durante a Ditadura (1964-1985). O ex-capitão, não "confia em civis", aponta o petista.

O Brasil é um dos países mais afetados pela epidemia de coronavírus com quase 14.000 mortos, mas Jair Bolsonaro pede diariamente o fim das medidas de isolamento, alegando que a preservação da economia e dos empregos são prioritários para evitar o "caos social'.

Na entrevista à jornalista Paula Ramon, ele denunciou o governo que "transforma quem está preocupado com o coronavírus em inimigo", se referindo aos ataques de Bolsonaro contra os governadores que decretaram medidas de quarentena.

O ex-presidente, de 74 anos, está em quarentena em sua casa em São Bernardo do Campo, na periferia de São Paulo, desde 12 de março, juntamente com sua companheira Rosângela da Silva, "Janja". Libertado em novembro de 2019, depois de passar 19 meses na prisão, acusado por corrupção passiva, Lula disse se "sentir detido em sua própria casa". Mas indicou na entrevista realizada pelo aplicativo Zoom, que "faz muitas reuniões online, com sindicatos, com o PT, com deputados, com grupos nas redes sociais".

Leia os principais trechos da conversa:

AFP: Quando o senhor saiu da prisão, rejeitava um impeachment de Bolsonaro, mas agora mudou de opinião. Por quê?

Lula: "Eu não mudei de opinião. O que acontece é que você não elege um presidente hoje e no dia seguinte tenta fazer o impeachment. Primeiro a pessoa tem que ter cometido crime de responsabilidade. Na minha opinião, Bolsonaro tem cometido vários crimes de responsabilidade, tem atentado contra a democracia, contra as instituições, contra o povo brasileiro. Ele não tem sequer respeito pelas pessoas que morreram [de COVID-19]. Não acho que o impeachment tem que ser feito por um partido político, tem que ser feito por uma instância que não seja partidária (...), porque se você entrar com uma proposta partidária, ela vai ser uma proposta ideologizada e será pretexto para que muitos deputados não queiram participar."

O PT estaria aberto a alianças mais amplas, com o centro ou a direita?

"É difícil imaginar. É preciso fazer uma diferença entre a construção de uma frente ampla e uma aliança eleitoral (...) A aliança [eleitoral] do PT no Brasil será uma aliança pela esquerda."

E uma frente ampla é possível?

"No Brasil temos 30 e poucos partidos (...) Os partidos não querem perder sua autonomia (...) O que a gente pode fazer é uma aliança ampla, não uma frente."

O PT impulsionaria essa aliança ampla?

"O PT já fez isso (...) nas eleições de 2002 (...) Na eleição da Dilma, em 2010, tivemos vários partidos, 10 ou 12, e também em 2014. O que demonstra que a quantidade de partidos que te apoiam não significa nada porque esses mesmos partidos que apoiaram a Dilma foram os que deram o golpe na Dilma [a presidente Dilma Rousseff foi destituída do cargo pelo Congresso em 2016]. Às vezes, aquele ditado 'antes só do que mal acompanhado' vale muito para a política brasileira."

Como o senhor avalia o posicionamento dos militares?

"Hoje o Palácio do Planalto tem menos civis que militares (...) Eles estão mandando hoje no Brasil. Bolsonaro não confia nos civis que trabalham com ele e se pudesse, colocaria para cada civil um adjunto militar (...) O país não é uma caserna. O Brasil é um país de 8,5 milhões de km2. Tem que ser governado da forma mais democrática possível e nem sempre os militares sabem lidar com a democracia (...) Os militares hoje têm mais influência no governo do que no regime militar."

  

O coronavírus está sendo politizado no Brasil?

"O papel de um maestro é conduzir harmonicamente a orquestra. O papel de um presidente da República é construir harmonicamente as decisões. Bolsonaro já deveria ter feito reuniões com os governadores, com o ministro da Saúde, com os prefeitos (...), [mas] o governo transforma as pessoas que estão preocupadas com o coronavírus em inimigos, então não pode dar certo. Como eu sou católico, fico rezando para que o povo brasileiro escape deste genocídio de responsabilidade causado por Bolsonaro."

 

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